Como foi o show do Aerosmith no Mineirão @ 18/09/2017

Eu sempre achei divertido pensar que a peça (e o filme) “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” não tenha praticamente nenhuma relação com a escritora inglesa. Às vezes um evento é tão casual em suas implicações, que sua existência se torna quase um acidente de percurso. O fundo impressionista de um retrato fiel em primeiro plano.

Preciso fazer uma confissão; esse texto começa a ser escrito antes do show do Aerosmith acontecido no dia 18/09/2017 que, supostamente, estou cobrindo. Decidi por tal artifício por praticidade, sabia que a cobrança do editor seria intensa, e minha tendência irritante a ser prolixo atrasaria certamente o resultado. Não percebi problemas; qual é a novidade que você, leitor raro, realmente espera em uma apresentação dos bad boys de Boston? Certamente acertariam com alguns meses de antecedência, e com uma precisão espantosa, o set list, os trejeitos dos membros e as “surpresas” preparadas. Nenhuma novidade no front. Essa percepção mais do que frustrante é acolhedora; o artista consagrado te garante a segurança morna da previsibilidade, o porto seguro que muitas vezes falta numa vida cercada de indecisões. Sim, a emoção apaixonante do novo é excitante, mas envelhecer te pede uma rotina que não seja tão perigosa. Eu já senti tanto medo nessa vida… Acho que amei também.

Como o convite para cobrir o show foi feito muito próximo à data do evento, achei melhor não me preparar de maneira nenhuma, isto é, não revisitar o repertório da banda, não pesquisar sobre os outros shows da turnê ou mesmo pensar muito sobre o assunto até o dia da apresentação. Na verdade, Aerosmith nunca fez parte da minha construção musical, povoada mais claramente por The Velvet Underground and Nico, Revolver/Sgt. Pepper’s e Ziggy Stardust. A banda é muito mais uma lembrança. Uma boa lembrança, certamente. Da nossa juventude nos anos 1990, apaixonados por Sabrina Parlatore, formando nossa cultura pop em frente ao aparelho televisivo, a primeira geração de TV por assinatura do país.

Quando penso nesse momento, não posso deixar de sentir uma onda nostálgica e triste, uma percepção de como se tornou pequeno o leque de possibilidades frente à infinidade de então. O que diria o pequeno Théo ao se olhar no espelho do tempo e me ver? Será que cheguei perto de atingir alguma de suas expectativas? Lustrada pelo verniz da lembrança, esse momento me parece mágico. O passado passou como do nascer ao pôr do sol, e na realidade nunca foi tão bom quanto parece nas reminiscências. Envelhecer é perceber que o futuro segue a mesma lógica. Mas calma, garoto, me dê um pouco de tempo, o show ainda nem começou.

Dirigindo-se ao Mineirão no ônibus surpreendentemente vazio, duas gerações bem distinta: dois amigos que viveram intensamente a segunda vida do Aerosmith nos anos 1990 e uma jovem nascida em meados daquela década. Acho interessante a discrepância, mas o conflito, que espero, não se realiza. Falta paixão de todos os lados. Para um evento único, as expectativas são baixas. Queria suar, ter medo de me atrasar, chegar trêmulo e com lágrimas nos olhos segurando o ingresso com a intensidade do Convite Dourado. “Será que em algum momento nessas décadas de vida irregular perdemos algo em nós?”, pergunto com o olhar ao amigo/editor. Ele finge não entender. O som alto nos embala quando desembarcamos.

Sei que os arredores do estádio com seu cheiro de gordura e bebida, pessoas errando entradas e sendo abordadas por ambulantes vendendo camisetas “oficiais” da turnê e cambistas será a parte mais autêntica da noite. Em muitos aspectos, sempre me interessei muito mais pelo ecossistema que frequenta grandes eventos do que o evento em si. Tenho a leve impressão que essa veia sociológica, nunca bem aproveitada, se parece muito mais com um fetiche decrépito de um observador obsceno, mas não posso evitar. Assim, passo a registrar rostos, vestuários, gestos, palavras e expressões. Esse exercício infrutífero me traz prazer e paz; há algo de especial em perceber como se organiza a expectativa coletiva.

Ao entrarmos no Mineirão, o único choque real da noite; a música que ouvíamos, um emaranhado sem inspiração de clichês inevitáveis do rock, tocados em ordem aleatória e irritante, não era fruto de alguma playlist automática, mas sim do trabalho de uma DJ extremamente (quase criminosamente) atraente. Nada mais sintomático em uma era Instagram, de postagens vazias em redes sociais, em que a imagem é muito mais importante que o conteúdo, que uma banda com mais de quatro décadas de estrada seja precedida por uma figura decorativa sem talento. Prestem atenção crianças, por favor, esse foi o momento didático do dia. Esse velho reclamão está gritando, espero que escutem.

Infelizmente, na Pista Premium, essa praga endêmica de um país que aparentemente nunca vai superar sua Casa Grande e Senzala, tenho uma visão limitada do público. Será que as pessoas que me cercam, bonitas demais, bem vestidas demais, elegantes demais, representam o grosso de todos os que foram? Impossível fingir não perceber a pasmaceira muito mais monocromática do que seria saudável. Ou o semblante que é quase um selo da tradicional família mineira, com seus preconceitos e conservadorismo. Se acalme Théo, você faz parte, mesmo que indiretamente com sua credencial, de uma elite, que em pleno 2017, se aglomera aos milhares, mas não tem coragem de dar nenhum grito de ordem. Chega a ser irônico, mas completamente lógico, que os privilegiados da capital mineira, que pagaram até 700 reais para estar ali, tenham uma visão tão clara da rua, na qual uma turma animada escuta o show gratuitamente. A falsa noção de exclusividade. A mentalidade da corda do carnaval baiano em estado bruto. Talvez seja necessário perder para saber como vencer. O Brasil é muito menor do que se imagina. E você achou que não aprenderia nada hoje.

A possibilidade de ver de perto a banda, por outro lado, é cativante, embora a primeira impressão ao ver o rosto dos integrantes projetados de forma gigante nos telões, é notar como estão velhos. Essa percepção escrota e óbvia só pode mesmo surgir de alguém que se acostumou consigo mesmo, que finge que a barriga que cresce, os fios brancos na barba rala e bolsas nos olhos sempre estiveram ali. Toda vez que me olho no espelho, as linhas no meu rosto ficam mais claras. Mas peço que perdoem o meu espanto, a última vez que pensei no Aerosmith foi há mais de 15 anos, e aquela é ainda a imagem que tenho deles. Congelamos certos momentos e pessoas no espaço e no tempo, esquecendo, propositalmente, que a única coisa natural é a mudança. A memória e seu filtro embelezador mantendo aparências impossíveis. Um brinde a ela!

E assim como começa, com a qualidade esperada, o show se acaba. Como um suspiro. Não há muito o que dizer. Qual é a novidade que você, leitor raro, realmente espera em uma apresentação dos bad boys de Boston? Poderia citar a emoção de ouvir “Dream On” ao vivo, ou da admiração ao relembrar “Livin’ On The Edge”, talvez citar meu leve descontentamento por não ouvir “Janie’s Got A Gun”. Expor o vazio existencial inexplicável e gratuito que senti ao ouvir “Crazy”, quando lembrei de todos os relacionamentos que tive e que não tive, e me senti sozinho, inapelavelmente sozinho. Poderia. Seria mesmo uma possibilidade lógica. Como todos os caminhos que não seguimos ao longo de nossa vida.

Estou em casa muito mais cedo do que imagino, com dor nas costas e um zumbido insistente no ouvido. Evidentemente não estou rejuvenescendo. Anotem; fazer as pazes com aquele jovem que era no passado deixa marcas no corpo no presente. Essa noção me leva a novas reflexões na madrugada de trabalho, mas uma pessoa de que muito gosto e em que muito confio me pede em pensamento que combata minha tendência prolixa, vá descansar e sonhar. Mesmo que só por hoje. Até porque pode ser que amanhã o bom Senhor me leve.

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