O dia que o Arcade Fire me abençoou: Uma crônica insólita de um show na Fundição Progresso

por Priscila Armani, do podcast O Que Assistir

Vocês me desculpem eu ter demorado tanto a escrever. Aconteceu há uma semana. Mas a verdade é que ainda me faltam palavras para expressar a experiência extracorpórea que vivi. Poderia dizer que foi um show, mas foi muito mais do que isso. Foi algo que vou levar comigo por toda a vida.

Comecemos pelo Rio de Janeiro, que eu não conhecia. Assim que desci no aeroporto Santos Dumont, perdi o fôlego. É sim uma das cidades mais bonitas do mundo. Eu achava que isso era papo para turista ver. Mas não é. Eu fui em Amsterdam, em Varsóvia, fui em Praga, em Berlim. Vi gente dizendo em todas elas que nunca tinha visto nada igual. Mas a verdade é que brasileiro tem auto-estima baixa. Nenhuma delas se compara ao Rio. Então eu estava bem feliz de o Arcade Fire ter escolhido tocar lá e de eu ter escolhido conhecer essa cidade, finalmente.

Aí chegamos, maridão e eu, na Fundição Progresso, uma antiga fábrica adaptada para ser casa de shows. A promessa era de um show intimista. Logo pensamos que estaria vazio. Não poderíamos estar mais enganados.

Foi triste descobrir que havia uma pista premium na nossa frente, algo que era previsto quando a venda do ingresso foi na Arena Olímpica, antes da troca de lugar. Simplesmente nos esquecemos dessa área vip. Ela fazia mais sentido num estádio, mas foi mantida. E lamentamos não estarmos mais perto do palco. Que bobagem, descobriríamos em breve.

O Bomba Estéreo veio e foi absurdo. Que banda. Que abertura. Um show vibrante e energético. “Somos Dos” não deixou ninguém parado. Uma das maiores bandas da Colômbia na atualidade, manteve boa parte do repertório apresentado no Lollapalooza esse ano. Mas com um vigor eletrônico e instrumental surpreendente. “Quem sabe faz ao vivo!”, já diria o poeta. A malemolência da vocalista era de dar inveja a qualquer ser humano. Outra banda não teria segurado tão bem o tranco e a responsabilidade daquele show de abertura.

Aí veio o Arcade Fire e a minha expectativa era ouvir também as músicas dos outros álbuns. Eu adoro “Everything Now”, ao contrário de alguns críticos da banda. Acho que o álbum tem verdadeiras obras-primas. Fomos privilegiados de ver ao vivo pela primeira vez “Peter Pan”, que até então a banda ainda não tinha tocado em nenhum show. E ficamos extasiados com a performance de Régine Chassagne cantando “Eletric Blue”. Teve balões azuis, mas teve também muita entrega da cantora, que estava extremamente emocionada com a receptividade do público. E não foi só nessa faixa. Régine tem brilho muito próprio e é bem visível seu crescimento gigante, como performer e como cantora. Que diferença da performance do Lollapalooza há dois anos para agora! Que evolução linda de presenciar.

E Win Butler deu dois presentes ao Rio, além do show. O primeiro foi doar o valor de um dólar de cada ingresso para uma instituição de caridade carioca. Ele agradeceu também todas as mensagens de solidariedade enviadas por brasileiros quando do desastre do Haiti (antes de executar a música de mesmo nome). A família de Régine é em parte de lá e quando o furacão arrasou o país ano passado a banda foi lá prestar ajuda.

O segundo presente foi descer do palco para cumprimentar os brasileiros. Mas ele não cumprimentou apenas quem estava na famigerada área vip. Ele deu a volta dentro da Fundição Progresso e foi cumprimentar a nós, meros mortais, da pista comum. Toquei de leve no seu ombro quando ele passou e captei parte do momento em vídeo. Foi bonito demais. Deu pra ver no rosto dele o quanto ele estava feliz e emocionado. Nós como público estávamos em êxtase e ele como artista estava boquiaberto. O público cantou todas as músicas. Na execução de “Neon Bible”, ele pediu a todos para ligarem os celulares. E eu me senti numa igreja, num momento de oração.

Quando eles tocaram “The Suburbs”, foram inevitáveis as lágrimas. Outro ponto alto da noite foi ter dedicado “After Life” a David Bowie, apontando para cima. Onde ele estiver, deve estar satisfeito. Quando tocou com a banda no Grammy de 2010 ninguém conhecia o Arcade Fire. Hoje é uma das maiores bandas do mundo. E esfregou a cara dos críticos no chão da Fundição Progresso.

Faltou Neighborhood #2 (Laika) ? Faltou. Mas eles terem encerrado o show com “We Don’t Deserve Love” foi uma clara sinalização de que a banda está seguindo em frente. Ela não nega seu passado nem jamais deixará de valorizar seus sucessos (Tocaram “My Body is a Cage!”, mais lado B que isso não tem). Mas o caminho rumo ao sucesso, rumo a mais Grammys e a mais subversão de expectativas é sem volta. Se você, fã, não abrir a sua cabeça, perderá o melhor que ainda está por vir. Quanto a mim, me sinto privilegiada e abençoada de ter estado lá no Rio, naquele show, um momento histórico. E sempre que eles vierem ao meu país eu estarei lá. Win Butler tem em mim uma devota fiel.

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