Review: Show do U2 no Brasil @ 21/10/17

Texto: Fernando Scoczynski Filho

Quanto mais shows eu assisto, mais percebo que são experiências altamente subjetivas. Claro, toda forma de arte pode ser avaliada de forma subjetiva, mas os shows, ao contrário de discos ou filmes, são performances que acontecem (só) naquele momento, e daí acabam, já era. Não há vídeo no YouTube ou Instagram que te faça voltar atrás e sentir-se de outra maneira. Tudo que estiver te influenciando naquele momento – clima, companhia, cansaço, fome, etc -, vai formar tua opinião. Da mesma maneira, ver uma banda ao vivo em condições que não te favoreçam, é como não ver a banda. Sábado, fui assistir ao U2 pela segunda vez na minha vida – mas acabou sendo, sem dúvidas, meu primeiro show do U2.

Em 2011, vi U2 na turnê 360. Som ruim, setlist fraco, e vista do palco “de lado”, na arquibancada. Voltei decepcionado, imaginando se era a banda que tinha ficado ruim ou se eu estava exigente demais. Não era nada disso. Neste sábado, 21, vi o U2 na turnê comemorativa do disco The Joshua Tree. Um lugar bem posicionado na pista, som melhor, setlist melhor, e, não menos importante, foi meu primeiro show acompanhado da minha namorada – e o primeiro da vida dela. Dificilmente poderia ter sido melhor.

No que diz respeito à seleção de músicas: abrir com “Sunday Bloody Sunday” foi ótimo, porque já tirou do caminho “aquela” música chatinha que já deu o que tinha que dar há muito tempo; com a animação de início de show, ficou bem tolerável. Após “New Year’s Day”, veio logo o primeiro ponto alto do show: “Bad”, que por si só já é uma das minhas favoritas, mas com uma execução tão impecável, deixou um registro definitivo da música na minha memória. Estar bem próximo do palco “B” ajudou muito também, pois ver as expressões faciais da banda fazem o show infinitamente mais interessante. A performance do The Joshua Tree na íntegra, mesmo que majoritariamente previsível, é difícil de se criticar. Valendo tanto pelo aspecto visual quanto pelo som, os destaques se encontram na primeira metade do disco, deixando a plateia um pouco dispersa entre “Running to Stand Still” e “Exit”.

No primeiro bis, percebi que diferença faz estar ao lado de alguém que nunca teve aquela experiência antes, e que não ouviu certas músicas até não poder mais. Ver minha namorada pular com a plateia em “Elevation” e “Vertigo” fez toda a minha chatice e meu blasé de fã elitista desaparecerem. Não importava mais que as músicas apareceram em todos os setlists da banda desde seus respectivos lançamentos, ou que eu certamente passaria reto pelas músicas caso elas aparecessem em alguma playlist. Minha companhia no show aproveitou o momento, então eu também aproveitei, e foi mágico. As já belas “Ultra Violet (Light My Way)” e “One” conseguiram ficar mais belas, e fechar o show perfeitamente.

Até as típicas mensagens políticas do Bono também ganharam uma repaginada necessária, e tornaram a experiência mais empática. Ao invés de falar de problemas gravíssimos que parecem fora do nosso alcance (AIDS e fome mundial, como já fez no passado), fez um discurso essencialmente feminista, dizendo que a história do mundo só mudaria quando as mulheres a escrevessem. Não falou de guerras do outro lado do mundo, falou “um dia os brasileiros terão políticos que mereçam seu povo”. Numa mesma linha, não teve Seu Jorge cantando Kraftwerk, teve Bono cantando Águas de Março em inglês, deixando “Bad” ainda mais incrível. E, para completar, Larry Mullen Jr. com sua camiseta dizendo “censura nunca mais”, em tempos de crescente repressão à arte e à expressão no Brasil, foi impagável.

Tudo isso culminou num show que posso chamar de “meu” show do U2, e tive a experiência da qual já tinha ouvido falar bem. Precisei ver duas vezes para entender do que se tratava, mas valeu cada centavo.

Um comentário em “Review: Show do U2 no Brasil @ 21/10/17

  • outubro 27, 2017 em 8:11 am
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    É, o lugar de onde se vê o show faz mesmo toda diferença. Eu vi da arquibancada, láááonge e tive uma impressão completamente diferente da sua. Terceira vez que assisti o U2 ao vivo, e pra mim, foi a pior vez. Na Vertigo estava na pista, bem pertinho da grade e na 360 nas cadeiras atrás do palco, o que foi incrível!

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