No dia 30 de janeiro, o Brasil celebra o Dia da Saudade. Essa palavra, que carrega um peso cultural imenso, vem do latim “solitatem” (solidão), mas evoluiu na nossa língua para significar muito mais do que apenas estar sozinho.
Segundo o dicionário Michaelis, saudade é um “sentimento nostálgico e melancólico associado à recordação de pessoa ou coisa ausente”. Porém, quem sente sabe que a definição técnica não basta. A saudade é a presença da ausência; é a prova de que o que foi vivido valeu a pena.
Para marcar esta data, preparamos uma curadoria com 5 músicas sobre saudade que fogem do óbvio e tocam na ferida, seja pela perda de um pai, de um amigo ou de um tempo que não volta mais.
1. “Tears in Heaven” – Eric Clapton
Impossível falar de luto e saudade sem citar este clássico. Escrita por Eric Clapton após a morte trágica de seu filho Conor, de apenas 4 anos, a canção transcende a dor pessoal do artista e se torna um hino universal.
Com uma melodia acústica suave e uma poesia devastadora, Clapton toca no ponto mais sensível da perda: a dúvida sobre o reencontro espiritual. O trecho mais marcante questiona se a conexão física permaneceria a mesma em outro plano:
“Would it be the same if I saw you in heaven?” (Seria igual se eu te visse no paraíso?)
2. “Naquela Mesa” – Nelson Gonçalves
Se existe uma música brasileira que define a saudade doída do luto familiar, é esta. Composta pelo jornalista Sérgio Bittencourt como uma carta aberta ao seu pai, o gênio do choro Jacob do Bandolim, a letra é um soco no estômago de quem já viu uma cadeira vazia no almoço de domingo.
A interpretação visceral de Nelson Gonçalves transformou a música em um monumento. Ela não fala de uma saudade abstrata, mas da saudade física, dos objetos que ficaram e da rotina que perdeu o sentido.
“Naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele tá doendo em mim.”
3. “Wish You Were Here” – Pink Floyd
Saindo do luto familiar para a saudade de alguém que ainda está vivo, mas “se perdeu”. O Pink Floyd escreveu essa obra-prima para Syd Barrett, o fundador da banda que se afastou da realidade devido a problemas mentais e uso de drogas.
É uma saudade complexa, misturada com impotência. O título (“Gostaria que você estivesse aqui”) tornou-se uma das frases mais tatuadas e citadas da história do rock, servindo para qualquer tipo de distância — física ou emocional.
“How I wish, how I wish you were here. We’re just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year.” (Como eu queria que você estivesse aqui. Somos apenas duas almas perdidas nadando em um aquário, ano após ano.)
4. “Saudosa Maloca” – Adoniran Barbosa
A saudade também pode ser geográfica e temporal. Adoniran Barbosa, o cronista de São Paulo, narra em “Saudosa Maloca” a demolição de um lar para dar lugar ao “progresso” imobiliário.
Embora a letra conte a história de uma casa derrubada, o sentimento real é a falta da convivência, dos amigos (Mato Grosso e Joca) e de uma era de simplicidade que foi atropelada pela modernidade. É a nostalgia urbana em sua forma mais pura.
“Se o senhor não tá lembrado, dá licença de contá, que aqui onde agora está esse adifício arto, era uma casa véia, um palacete assobradado.”
5. “Saudade” – Etienne Daho
Dizem que “saudade” é uma palavra intraduzível, exclusiva da língua portuguesa. Esse conceito fascinou tanto o cantor francês Etienne Daho que ele compôs uma faixa inteira batizada com o termo.
A música fecha nossa lista mostrando que o sentimento rompe fronteiras linguísticas. Daho mistura a sonoridade pop francesa com a melancolia do termo, cantando sobre a difícil tarefa de tentar reencontrar a felicidade enquanto se convive com o buraco deixado pela falta de alguém.
A Saudade em Números (Dados do Ecad)
O Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) realizou um levantamento em seu banco de dados — um dos maiores da América Latina — para entender como a música brasileira lida com esse tema.
Existem mais de 15.006 músicas cadastradas que levam a palavra “Saudade” no título. Veja o ranking das campeãs de gravação:
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Chega de Saudade (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) – O marco zero da Bossa Nova.
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Saudade de Minha Terra (Goiá/Belmonte).
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Ainda Ontem Chorei de Saudade (Moacyr Franco).
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Saudades de Matão (Raul Torres/Antenógenes Silva).
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Saudade da Bahia (Dorival Caymmi).
A música é o melhor refúgio para quem sente falta. Dê o play na nossa playlist #MemóriasComZelo e deixe a memória fluir.

