Se você quer brigar na internet sem xingar ninguém, aqui vai um atalho eficiente: diga que 1986 foi o melhor ano do rock nacional. Pronto. Vai aparecer um fiscal de 1985 (“Rock in Rio, pô!”), um saudosista de 1989 (“As Quatro Estações!”), um cult de 1972 (“Mutantes!”) e um iluminado que vai declarar que “rock brasileiro de verdade acabou quando inventaram o Wi-Fi”.
Só que 1986 tem uma vantagem injusta: ele não é só “bom”. Ele é o ano em que o rock brasileiro parece que pegou a chave do carro do pai, ligou o som no talo e saiu derrapando na rua — e, por milagre, não bateu. Foi o ano em que vários nomes grandes entregaram discos que viraram régua de comparação pra sempre: Titãs com Cabeça Dinossauro (lançado em 25 de junho de 1986), Legião Urbana com Dois (20 de julho de 1986), Paralamas com Selvagem? (24 de abril de 1986)…
E ainda teve o fenômeno de massa do RPM com Rádio Pirata ao Vivo, de 1986, que é citado como um dos discos mais vendidos da história do Brasil (na casa de milhões).
Agora sim: 5 motivos que 1986 foi o melhor ano do rock nacional.
1) Porque 1986 é o ano em que o rock parou de “tentar ser legal” e começou a morder
Tem ano que o rock posa pra foto; 1986 dá cabeçada.
Cabeça Dinossauro não é só um disco: é um chute na porta do condomínio. Punk, seco, nervoso, com letras que parecem cartaz de protesto colado torto no poste. E o mais importante: foi mainstream sem pedir desculpa. Não é “rock alternativo” no cantinho — saiu por gravadora grande, virou referência e ainda puxou turnê pesada.
Polarização inevitável: tem gente que ama porque é “o Brasil encarando o próprio espelho”; tem gente que odeia porque “é barulho”. Só que, sinceramente? Quando alguém diz “é barulho”, normalmente é porque o som está dizendo algo que a pessoa não queria ouvir.
2) Porque 1986 é o ano em que o rock brasileiro vira adulto sem virar chato
Dois, da Legião Urbana, é aquele disco que pega o adolescente dramático e dá um emprego pra ele: continua intenso, mas agora sabe escrever e organizar as próprias emoções. Foi lançado em julho de 1986 e virou um dos pilares do BRock, com faixas que até hoje vivem em rádio, karaokê e término de namoro.
A metáfora aqui é simples: Dois é aquele amigo que, no churrasco, não fala alto, mas quando fala todo mundo cala. É um álbum que transforma angústia em canção pop sem perder o veneno — e isso é raríssimo.
3) Porque 1986 é o ano em que o rock aprende a ser Brasil sem pedir autorização pra “MPB”
Se Cabeça Dinossauro é soco, Selvagem? é capoeira: tem crítica, tem ritmo, tem swing, tem política, tem Brasil misturado com Caribe e África — e ainda assim é rock, com guitarra e urgência. O disco saiu em abril de 1986 e é frequentemente tratado como divisor de águas na sonoridade e no discurso dos Paralamas.
E aqui vai a cutucada que dói: muita gente que paga pau pra “mistura” quando vem de gringo torce o nariz quando a mistura é nossa. Em 1986, os Paralamas fizeram isso de um jeito tão natural que parece óbvio — mas não era.
4) Porque 1986 é o ano em que o rock vira evento de massa sem virar “produto sem alma”
Se você acha que rock brasileiro sempre foi nicho, 1986 te dá um tapa com luva de couro: o RPM lança Rádio Pirata ao Vivo e o negócio vira uma espécie de Copa do Mundo do pop-rock — multidões, histeria, disco ao vivo gigantesco, e um desempenho comercial que entrou na lista dos mais vendidos da história do país (com mais de 3 milhões de cópias, segundo registros amplamente citados).
Isso importa por um motivo: massa não é sinônimo de vazio. Às vezes é só sinônimo de “o país inteiro entendeu a mensagem ao mesmo tempo”. E, em 1986, entendeu.
5) Porque 1986 é o pico do “ecossistema”: tinha clássico, tinha estreia, tinha briga de tribo e tinha espaço pra todo mundo
O melhor ano não é o que tem “um disco genial”. É o que tem vários discos fortes ao mesmo tempo, puxando a cena pra frente como se fosse bloco de carnaval: um empurra o outro.
Em 1986, além dos gigantes, você tem estreias e consolidações que ampliam o mapa: Engenheiros do Hawaii lança Longe Demais das Capitais (outubro de 1986), Ira! lança Vivendo e Não Aprendendo (agosto de 1986), o Barão Vermelho está na fase pós-Cazuza com Declare Guerra! (1986) — tudo acontecendo no mesmo calendário.
E pra completar o contexto: 1986 é aquele ano que pega o “convencimento” do mercado vindo do Rock in Rio 1985 (quando gravadoras e imprensa entenderam de vez que rock era mercado grande) e transforma isso em produção em escala + ambição artística.
Veredito (pra gerar comentário, porque é pra isso que a gente vive)
1986 foi o melhor ano do rock nacional porque ele tem as três coisas que quase nunca aparecem juntas:
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crítica e coragem (Cabeça Dinossauro)
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canção gigante e coração exposto (Dois)
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mistura brasileira sem pedir licença (Selvagem?)
…e ainda coloca o rock no modo multidão (Rádio Pirata ao Vivo).
Se você discorda, tudo bem: a prova de que 1986 é o melhor ano é exatamente o quanto dá vontade de discutir isso.

