Lançada em plena ditadura militar, época em que “ter opinião” era perigoso e “mudar de opinião” era visto como falta de caráter, Raul Seixas chegou com os dois pés na porta. “Metamorfose Ambulante” é o hino da impermanência.
Raul resgatou uma frase que escreveu aos 14 anos para criar um mantra que mistura a filosofia de Ovídio com a rebeldia do rock n’ roll. A canção é um ataque frontal ao dogmatismo e à estagnação mental. Para Raul, a única coerência possível é a de estar em constante transformação. Se você é a mesma pessoa de dez anos atrás, parabéns: você virou uma peça de museu.
📜 Curiosidades da Canção
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O Baú do Raul: A semente da música foi plantada na adolescência. A mãe de Raul guardou o papel onde ele escreveu o verso principal. Ele já era um filósofo de calças curtas antes mesmo de virar o “Pai do Rock Brasileiro”.
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Conexão Clássica: A inspiração literária vem de Metamorfoses, do poeta romano Ovídio, que trata das transformações de deuses e humanos. Raul pegou o conceito mitológico e aplicou no cotidiano: a gente morre e nasce todo dia.
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Top 100: Eleita pela Rolling Stone Brasil como uma das maiores músicas de todos os tempos, ela é a prova de que a verdade não é um ponto de chegada, mas uma estrada que a gente percorre.
🧩 Análise e Significado da Letra
Prepare o chapéu de couro e a jaqueta de couro, porque o MUSICAVIAJANTE.COM.BR acaba de entrar no trem das sete horas com destino ao manifesto definitivo da liberdade intelectual brasileira. Se a gente estava falando de construir casas com os Hermanos, agora vamos colocar rodinhas nelas.
O Horror à Estagnação
“Eu prefiro ser / Essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”
Raul usa a palavra “velha” para dar um tom de mofo, de algo que cheira a guardado. Ter uma opinião formada sobre tudo não é sinal de inteligência para ele, mas de preguiça intelectual. Ser uma metamorfose é aceitar que o mundo muda e nós também.
A Ode à Contradição
“Eu quero dizer / Agora o oposto do que eu disse antes”
Aqui ele choca o ouvinte. Em uma sociedade que exige coerência rígida, Raul reivindica o direito de se desdizer. Não é falsidade; é atualização de software. Se aprendi algo novo hoje, por que manter o erro de ontem?
A Efemeridade do Ser
“Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou / Se hoje eu te odeio, amanhã lhe tenho amor”
O eu lírico reconhece a volatilidade dos sentimentos. O ódio e o amor são faces da mesma moeda (“amor, horror, ator”). Ele assume que somos “atores” interpretando papéis que mudam conforme o palco da vida. Nada é fixo, nem o que sentimos pelos outros, nem o que sentimos por nós mesmos.
O Processo é o Objetivo
“É chato chegar / A um objetivo num instante”
Esta frase é um tapa na nossa ansiedade moderna. Raul nos lembra que a graça está na busca, na transformação, na “viagem”. Chegar ao objetivo é o fim do movimento; e o fim do movimento é a morte da metamorfose.
🏁 Conclusão
“Metamorfose Ambulante” é um grito de alívio. Ela nos tira o peso de termos que ser “alguém” definido para sempre. Raul Seixas nos dá licença poética para sermos incoerentes, para mudarmos o rumo da prosa e para queimarmos as pontes com nossas antigas certezas.
Afinal, como ele mesmo dizia, “a solução é alugar o Brasil”… ou, quem sabe, simplesmente aceitar que somos estrelas que se apagam e se acendem a cada novo amanhecer.
E aí, sentiu o poder do Raulzito? Essa música é o tipo de coisa que a gente deveria ouvir toda vez que alguém tenta nos colocar em uma caixinha.
Letra de Metamorfose Ambulante
Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio, amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor, lhe tenho horror
Lhe faço amor, eu sou um ator
É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio, amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor, lhe tenho horror
Lhe faço amor, eu sou um ator
Eu vou desdizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha, velha, velha, velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

