Brasília, década de 80. Uma cidade planejada para carros, com eixos monumentais e setores rígidos, onde a juventude se sentia num aquário de concreto. É desse isolamento geográfico e político que nasce “Música Urbana”.
Escrita por Renato Russo (nos tempos de Aborto Elétrico) e imortalizada pela voz de Dinho Ouro Preto, a canção é um passeio voyeurístico pela solidão urbana. Ela não fala de revolução com cartazes, mas da revolução interna de quem caminha contra o vento, sentindo o cheiro de gasolina e esperando que algo — qualquer coisa — finalmente aconteça.
📜 Curiosidades da Canção
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O DNA do Aborto: Assim como “Que País é Este” e “Veraneio Vascaína”, esta música nasceu na banda que deu origem tanto ao Capital quanto à Legião Urbana. É o puro suco do punk candango.
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A Plataforma Sagrada: Quando a letra repete “Toda a plataforma”, ela se refere à Rodoviária de Brasília. Era lá que as tribos se encontravam nas madrugadas, esperando o primeiro ônibus e comendo o famoso pastel com caldo de cana.
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A Torre Invisível: “Você não vê a torre” faz menção à Torre de TV de Brasília. Em noites de neblina ou na “cegueira” do cotidiano urbano, os marcos da cidade somem, restando apenas o indivíduo e o asfalto.
🧩 Análise e Significado da Letra
Prepare o casaco de couro e sinta o cheiro de asfalto, porque o MUSICAVIAJANTE.COM.BR acaba de desembarcar na plataforma da Rodoviária do Plano Piloto. Se existe uma música que traduz o concreto frio e a alma quente de Brasília nos anos 80, essa música é “Música Urbana”.
Originalmente do Aborto Elétrico, ela se tornou um dos pilares do álbum de estreia do Capital Inicial (1986). Vamos entender por que esse hino do pós-punk brasileiro ainda ecoa em cada esquina escura das metrópoles.
O Conflito Silencioso
“Contra todos e contra ninguém / O vento quase sempre nunca tanto diz”
O narrador está em um estado de “neutralidade agressiva”. Ele não tem um inimigo claro, mas sente que o mundo está no sentido oposto. O vento que “nunca tanto diz” reforça a sensação de vazio e a falta de respostas que a cidade oferece.
O Desconforto da Caminhada
“Eu tenho pedras nos sapatos / Onde os carros estão estacionados”
Brasília foi feita para automóveis, não para pedestres. Ter “pedras nos sapatos” enquanto os carros estão parados (e protegidos) é uma metáfora brilhante para a dificuldade do jovem em transitar num sistema que não foi desenhado para ele. É o desconforto físico transformado em existencialismo.
A Atmosfera Industrial
“As ruas têm cheiro de gasolina / E óleo diesel”
Raul Seixas tinha o “cheiro de café”, mas o Capital Inicial tem o cheiro do progresso forçado. Essa sinestesia transporta o ouvinte para a beira da estrada, para o terminal de ônibus, para o lado menos glamouroso da capital do país.
A Resignação Caótica
“Tudo errado mas tudo bem / Tudo quase sempre como eu sempre quis”
Este é o verso que define a resiliência jovem. Nada está funcionando como deveria, o país está em crise, a cidade é fria, mas “tudo bem”. Há uma aceitação irônica de que o caos é o habitat natural dessa geração. Se está tudo errado, pelo menos a gente já sabe como lidar.
O Fim do Desespero
“Não me importam os seus atos / Eu não sou mais um desesperado”
Aqui o eu lírico atinge um novo patamar. Ele se desliga da opinião alheia. O “desespero” deu lugar a uma apatia protetora ou a uma maturidade precoce. Ele caminha pelas “ruas quase escuras”, mas agora ele é o dono do seu próprio silêncio.
🏁 Conclusão
“Música Urbana” é a fotografia em preto e branco de uma juventude que precisou criar sua própria diversão no meio do nada. Ela celebra o tédio como motor da criatividade. Hoje, ela continua atual porque, no fundo, toda grande cidade ainda cheira a óleo diesel e ainda nos faz sentir como passageiros de uma plataforma que nunca para de girar.
Sentiu a maresia de asfalto daqui? Essa música é o puro espírito do rock Brasília!
Letra de Música Urbana
Contra todos e contra ninguém
O vento quase sempre nunca tanto diz
Estou só esperando o que vai acontecer
Eu tenho pedras nos sapatos
Onde os carros estão estacionados
Andando por ruas quase escuras
Os carros passam
Contra todos e contra ninguém
O vento quase sempre nunca tanto diz
Estou só esperando o que vai acontecer
Eu tenho pedras nos sapatos
Onde os carros estão estacionados
Andando por ruas quase escuras
As ruas têm cheiro de gasolina
E óleo diesel
Por toda a plataforma
Toda a plataforma
Toda a plataforma
Você não vê a torre, yeah
Oh-oh-oh-oh
Oh-oh-oh-oh-oh-oh
Tudo errado mas tudo bem
Tudo quase sempre como eu sempre quis
Sai da minha frente, que agora eu quero ver, whoa-oh-oh
Não me importam os seus atos
Eu não sou mais um desesperado
Se ando por ruas quase escuras
As ruas passam
Tudo errado mas tudo bem
Tudo quase sempre como eu sempre quis
Sai da minha frente, que agora eu quero ver
Não me importam os seus atos
Eu não sou mais um desesperado
Se ando por ruas quase escuras
As ruas passam
As ruas têm cheiro de gasolina
E óleo diesel
Por toda a plataforma
Toda a plataforma
Toda a plataforma
Você não vê a torre, yeah
Oh-oh-oh-oh
Oh-oh-oh-oh-oh-oh
Whoa-oh-oh

