Imagine um jovem Renato Russo, com apenas 19 anos, escrevendo 159 versos sem um único refrão. “Faroeste Caboclo” é uma estrutura narrativa rara na música pop, inspirada no estilo de Bob Dylan (Hurricane) e no cinema de faroeste.
A música conta a vida de João de Santo Cristo, um retirante que foge do marasmo e da tragédia no sertão para buscar a “Terra Prometida” em Brasília. No entanto, o que ele encontra é uma cidade dividida entre a burguesia da Asa Norte e a realidade crua da Ceilândia. João não é um herói; ele é um produto de um sistema que o empurra para o crime desde o berço, transformando seu “Plano Santo” em uma via-crúcis sangrenta.
📜 Curiosidades da Canção
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O Roteiro de 1979: Renato escreveu a música muito antes da fama. Ela era tão longa que a banda hesitava em gravar, mas ela se tornou o ponto alto dos shows, com o público decorando cada vírgula da saga.
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Proibição nas Rádios: Por conter palavrões e temas pesados, a música sofreu censura e muitas vezes era tocada com cortes (“beeps”). Isso só aumentou o mito em torno da canção.
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A Mitologia de João: O nome “Santo Cristo” evoca o martírio. João nasce com ódio “que Jesus lhe deu”, uma crítica ácida à forma como a religião e a violência se misturam na formação do brasileiro.
🧩 Análise e Significado da Letra
Pegue a pipoca e apague as luzes, porque o MUSICAVIAJANTE.COM.BR acaba de dar o “play” no filme mais longo, épico e sangrento da história do rock nacional. Se as outras músicas são contos, “Faroeste Caboclo” é a Ilíada brasileira em nove minutos de puro soco no estômago.
Lançada em 1987 no álbum Que País É Este, essa odisseia escrita por Renato Russo em 1979 é o roteiro definitivo da exclusão. Vamos cavalgar por essa Brasília que não está nos cartões-postais.
A Gênese do Ódio
“Não tinha medo o tal João de Santo Cristo […] Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu”
O trauma de João começa cedo, com a morte do pai pelas mãos de um soldado. A música estabelece que a violência de João é reativa. Ele tenta ser “aprendiz de carpinteiro” (outra referência bíblica a José/Jesus), mas a fome e a exploração o empurram para o tráfico com o peruano Pablo.
O Embate de Classes
“Discriminação por causa da sua classe e sua cor / Ficou cansado de tentar achar resposta”
Renato Russo é direto: Brasília é um espelho do Brasil. João tenta trabalhar, mas o sistema é fechado. Quando ele entra para o crime, ele começa a frequentar as festas da Asa Norte, onde percebe que a elite consome o que ele vende, mas o despreza como ser humano.
Maria Lúcia: A Redenção Frustrada
“Maria Lúcia era uma menina linda / E o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu”
O amor por Maria Lúcia é a única chance de João sair do ciclo de violência. Ele volta a ser carpinteiro, tenta a vida honesta, mas o passado e a “burguesia” (representada pelo velho da proposta indecorosa) não o deixam em paz. O destino de João está traçado: “Você perdeu a sua vida, meu irmão”.
O Espetáculo da Morte
“Se a Via-Crúcis virou circo, estou aqui”
O duelo final na Ceilândia, em frente ao lote 14, é televisionado. Renato critica a espetacularização da violência. A morte de João e Jeremias vira entretenimento para as câmeras, enquanto o povo aplaude “como se fosse um circo”. É a morte da dignidade em favor da audiência.
O Recado Político Final
“Ele queria era falar pro presidente / Pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer”
A música termina não com o duelo, mas com um grito social. João de Santo Cristo morre sem conseguir seu objetivo mais ingênuo e nobre: ser ouvido pelo poder. A morte dele é “estatística”, e a alta burguesia “não acredita no que viu na TV”, mantendo a bolha de indiferença intacta.
🏁 Conclusão
“Faroeste Caboclo” é o maior retrato da desigualdade brasileira já musicado. João de Santo Cristo somos todos nós quando nos sentimos impotentes diante de um sistema que escolhe quem vai vencer antes mesmo da largada. Ele é santo porque soube morrer, mas, acima de tudo, porque tentou viver em um país que só lhe oferecia o “sangue amargo”.
Ufa! Nove minutos de música resumidos aqui. É sempre uma viagem intensa passar pela história do João.
Letra de Faroeste Caboclo
Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu
Quando criança, só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu
Era o terror da sertania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu
Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
De escolha própria, escolheu a solidão
Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico, aos doze, era professor
Aos quinze, foi mandado pro reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror
Não entendia como a vida funcionava
Discriminação por causa da sua classe e sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador
E lá chegando, foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem
Mas João foi lhe salvar
Dizia ele: Estou indo pra Brasília
Neste país lugar melhor não há
Tô precisando visitar a minha filha
Eu fico aqui e você vai no meu lugar
E João aceitou sua proposta
E num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal
Meu Deus, mas que cidade linda
No Ano Novo eu começo a trabalhar
Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
Ganhava cem mil por mês em Taguatinga
Na sexta-feira, ia pra zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo do seu bisavô
Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ele ia começar
E Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa
E decidiu que, como Pablo, ele iria se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E, sem ser crucificado, a plantação foi começar
Logo, logo os malucos da cidade souberam da novidade
Tem bagulho bom aí
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali
Fez amigos, frequentava a Asa Norte
E ia pra festa de rock pra se libertar
Mas de repente, sob uma má influência
Dos boyzinhos da cidade, começou a roubar
Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
Vocês vão ver, eu vou pegar vocês
Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general
Foi quando conheceu uma menina
E de todos os seus pecados ele se arrependeu
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
Maria Lúcia, pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter
O tempo passa e um dia vem na porta
Um senhor de alta classe com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa
E diz que espera uma resposta
Uma resposta do João
Não boto bomba em banca de jornal
Nem em colégio de criança, isso eu não faço, não
E não protejo general de dez estrelas
Que fica atrás da mesa com o cu na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um Peixes de ascendente Escorpião
Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse
Você perdeu sua vida, meu irmão
Você perdeu a sua vida, meu irmão
Você perdeu a sua vida, meu irmão
Essas palavras vão entrar no coração
Eu vou sofrer as consequências como um cão
Não é que o Santo Cristo estava certo?
Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira
Descobriu que tinha outro trabalhando em seu lugar
Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia
E Santo Cristo revendia em Planaltina
Mas acontece que um tal de Jeremias
Traficante de renome, apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que com João ele ia acabar
Mas Pablo trouxe uma Winchester 22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que Jeremias começasse a brigar
Jeremias, maconheiro sem-vergonha
Organizou a Rockonha e fez todo mundo dançar
Desvirginava mocinhas inocentes
Se dizia que era crente, mas não sabia rezar
E Santo Cristo há muito não ia pra casa
E a saudade começou a apertar
Eu vou-me embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já tá em tempo de a gente se casar
Chegando em casa, então, ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia, Jeremias se casou
E um filho nela ele fez
Santo Cristo era só ódio por dentro
E então o Jeremias pra um duelo ele chamou
Amanhã, às duas horas, na Ceilândia
Em frente ao lote catorze, e é pra lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas
Que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia
Aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor
E o Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o repórter da televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora, e o local e a razão
No sábado, então, às duas horas
Todo o povo, sem demora, foi lá só para assistir
Um homem que atirava pelas costas
E acertou o Santo Cristo e começou a sorrir
Sentindo o sangue na garganta
João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e pras câmeras
E a gente da TV que filmava tudo ali
E se lembrou de quando era uma criança
E de tudo o que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
Se a Via-Crúcis virou circo, estou aqui
E nisso, o Sol cegou seus olhos
E então Maria Lúcia ele reconheceu
Ela trazia a Winchester 22
A arma que seu primo Pablo lhe deu
Jeremias, eu sou homem, coisa que você não é
E não atiro pelas costas, não
Olha pra cá, filha da puta sem-vergonha
Dá uma olhada no meu sangue e vem sentir o teu perdão
E Santo Cristo, com a Winchester 22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor
O povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade
Não acreditou na história que eles viram na TV
E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer

