O impulso de ir embora antes do fim
“Tarde de Outubro”, do Tarde de Outubro, começa com uma decisão que parece prática, mas é profundamente emocional: ir embora antes de ver o fim. Quando o narrador afirma que pegou suas coisas e saiu, não há libertação ali — há fuga. O verso “eu nunca quis presenciar o fim” revela alguém que prefere o movimento ao confronto, a saída ao fechamento. Não é coragem, é autopreservação.
Esse tipo de partida é comum em relações que já estão morrendo há algum tempo. A pessoa sente que, se ficar, vai ter que assistir ao último suspiro de algo que já foi importante demais para acabar de forma limpa.
Quando o tempo vira inimigo
Um dos versos mais fortes da música está na percepção distorcida do tempo: “há dias que os dias passam devagar”. Aqui, o CPM 22 captura perfeitamente o estado pós-ruptura, em que o relógio continua funcionando, mas a vida entra em modo de espera. O mundo anda, mas quem ficou emocionalmente para trás sente tudo em câmera lenta.
Esse trecho conversa diretamente com outro golpe seco da letra: “tudo se foi, nada restou pra mim”. Não é só sobre perder alguém — é sobre perder a referência. Quando um relacionamento ocupa espaço demais na identidade de alguém, o fim não deixa apenas saudade; deixa vácuo.
Ir embora sem plano também é uma escolha
Quando o narrador diz que vai embora “sem pensar no que ficou pra começar ali”, fica claro que não existe um plano B. Não há nova vida estruturada esperando. Existe apenas a necessidade de sair do lugar onde tudo lembra o que acabou.
Esse é um detalhe importante: “Tarde de Outubro” não romantiza o recomeço. Não fala de liberdade, descobertas ou futuro promissor. Fala de interrupção. Às vezes, seguir em frente começa apenas com parar de insistir.
O tempo como promessa (e não como solução mágica)
O refrão — “são coisas que somente o tempo irá curar” — poderia soar genérico em outra música, mas aqui funciona porque vem carregado de cansaço. Não é esperança eufórica; é um acordo silencioso com o futuro. O narrador não diz como vai melhorar, apenas aceita que agora não dá.
Quando surge “se foi, tudo vai passar”, o verbo não é comemorar, é aguentar. Passar não significa esquecer. Significa sobreviver ao impacto até que ele doa menos. Outubro, mês de transição, funciona quase como metáfora: não é mais inverno, ainda não é verão. É o meio incômodo.
Repetição como tentativa de convencimento
A insistência em “tudo vai passar” no final da música não é certeza — é autoafirmação. É alguém repetindo para si mesmo aquilo que ainda não sente, mas precisa acreditar. O CPM 22 sempre entendeu bem esse lugar emocional: quando a música não resolve a dor, mas ajuda a aguentar a noite.
Por que “Tarde de Outubro” marcou tanto
Essa música virou símbolo porque fala de um tipo específico de dor:
não o fim explosivo,
não a traição escandalosa,
mas o esgotamento silencioso.
É a trilha perfeita para quem saiu de uma relação sem brigar, sem fechar portas direito — apenas porque ficar doía mais do que ir.
Letra de Tarde de Outubro
Peguei minhas coisas fui embora
Não queria mais voltar
Eu nunca quis presenciar o fim
Há dias que os dias passam devagar
Tudo se foi nada restou pra mim
Por isso estou aqui agora
Vou embora sem pensar
No que ficou pra começar ali
Mas eu só tinha algumas horas pra voltar
Tudo se foi, nada restou pra mim
São coisas que somente o tempo irá curar
Se for para nunca mais te ver chorar
São coisas que somente o tempo irá curar
Se foi tudo vai passar
Peguei minhas coisas (peguei minhas coisas)
Não queria mais voltar
Eu nunca quis presenciar o fim
Há dias que os dias passam devagar
Tudo se foi, nada restou pra mim
São coisas que somente o tempo irá curar
Se for para nunca mais te ver chorar
São coisas que somente o tempo irá curar
Se foi tudo vai passar
Tudo vai passar
Tudo vai passar

