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A música que o Pink Floyd nunca quis que virasse hit: “F**k you”

Por mais contraditório que pareça, uma das maiores músicas da história do rock foi feita para não ser um hit. E o que o Pink Floyd disse quando alguém sugeriu o contrário? Simples: “F**k you”.

Se tem algo que define o Pink Floyd é o fato de eles não jogarem pelas regras da indústria musical. Desde os tempos de Syd Barrett até a era monumental de The Wall, o grupo sempre teve mais interesse em construir álbuns-conceito densos e atmosferas sonoras imersivas do que em criar singles radiofônicos de três minutos. Eles não queriam tocar no rádio. Queriam te levar para outra dimensão.

Mas aí vem Another Brick in the Wall (Part II). Ironia das ironias: uma música feita com desdém à indústria musical e ao sistema educacional virou um dos maiores hinos pop da virada dos anos 1970 para os 1980 — tudo isso contra a vontade da banda.

A gênese do hit que não deveria existir

O álbum The Wall (1979), co-produzido por Bob Ezrin, é uma ópera rock com começo, meio e fim. Contar a história de “Pink”, um astro em colapso mental, exige ouvir o disco por completo. Como então extrair um single disso?

Ezrin teve a resposta: transformar a Parte II de Another Brick in the Wall em algo mais palatável para o rádio. O trecho, que tinha pouco mais de 1 minuto no corte original, ganharia batida inspirada na disco music da época, um refrão reforçado por coral infantil e uma ponte instrumental turbinada por um dos solos mais lendários de David Gilmour.

Mas quando Ezrin sugeriu isso à banda, a reação foi clássica Pink Floyd:

“A gente não faz singles, então f**k you.”
— Roger Waters, segundo Bob Ezrin

Só que Ezrin era o tipo de produtor que não aceitava um “não” como resposta. Ele já tinha moldado hits de Alice Cooper e Kiss. E mesmo que Roger Waters estivesse cuspindo veneno contra a indústria, Ezrin viu o potencial de algo maior ali. Ele pegou as partes, remixou com o coral infantil, fez ajustes no arranjo e pronto: criou um dos maiores hits do século 20.

O sucesso inevitável e a ironia brutal

Another Brick in the Wall (Part II) chegou ao primeiro lugar em mais de 10 países. Vendeu milhões. Foi número 1 nos Estados Unidos — um feito que poucos britânicos alcançavam. A música virou trilha sonora de protestos, festas, rádios pop e até marchinhas de carnaval genéricas. Tudo isso para uma música que Roger Waters escreveu como crítica direta à educação autoritária.

Imagine o desgosto e a frustração. Waters queria provocar, e o mundo respondeu dançando.

A frase “We don’t need no education” virou slogan global — mesmo que gramaticalmente incorreta — e a ironia se tornou ainda mais cruel: Pink Floyd, que evitava refrões pegajosos, criou acidentalmente um dos refrões mais cantados da história.

O poder de um erro que deu certo

Anos depois, ouvindo a multidão gritar o refrão em uníssono no ao vivo Is There Anybody Out There?, até Waters deve ter percebido que talvez… só talvez… aquele “erro” tivesse algum valor.

No fim das contas, Another Brick in the Wall (Part II) não apenas furou o bloqueio que o Floyd havia imposto contra os hits — ela explodiu esse muro com dinamite sonora, carregando junto toda a contradição de uma banda que odiava os holofotes, mas que iluminou o mundo com eles.

E isso é o Pink Floyd: mesmo quando dizem “não”, o mundo escuta “sim”.