Tem gente que volta a um lugar para reviver um sucesso. Di Ferrero voltou ao Rock in Rio para acertar contas com um fracasso. Nesta sexta-feira (4/9), o ex-vocalista do NX Zero subiu ao Palco Sunset do Rock in Rio 2026 pela terceira vez na carreira — mas pela primeira vez sozinho, sem banda para dividir os holofotes e sem desculpa se algo desse errado. E, pelo visto, nada deu.

2011: o show que o próprio Di Ferrero chama de sabotagem
Para entender por que a volta de 2026 pesa tanto, é preciso voltar 15 anos. Em 2011, Di Ferrero pisou pela primeira vez no palco do Rock in Rio à frente do NX Zero, um dos maiores nomes do rock brasileiro daquela geração ao lado de Fresno e Restart. Só que, segundo o próprio cantor contou à Rolling Stone Brasil, aquele não foi um momento de glória — foi um momento de autossabotagem.
“Eu não tinha a cabeça que tenho hoje e me sabotei”, resumiu, em entrevista recente, ao relembrar a ansiedade e os problemas técnicos que transformaram a estreia em frustração. Nada de vídeo raro viralizando por aí — apenas a lembrança incômoda de um cantor que não conseguiu aproveitar o próprio momento.
2022: a “redenção histórica” ao lado de Vitor Kley
A segunda passagem, em 2022, foi diferente. Dividindo o palco com Vitor Kley, Di Ferrero descreveu a experiência como uma “redenção histórica” e um “momento de êxtase” — a primeira vez, segundo ele, em que se sentiu genuinamente presente durante uma apresentação de grande porte. Foi o degrau que faltava para a volta solo que aconteceu agora.
2026: sozinho, com a turnê SE7E e a coragem de decepcionar
Desta vez, Di Ferrero chegou ao festival como artista solo, apresentando a turnê do álbum SE7E, lançado em maio de 2026 a partir de dois EPs de 2025. O disco marca uma virada de chave na relação do cantor com a própria carreira. “Às vezes eu perdi tempo e me esqueci de mim mesmo para agradar os outros. Agora construí a coragem de decepcionar as pessoas”, disse ele sobre o momento atual — uma frase que resume bem o tom mais maduro e menos ansioso do artista 15 anos depois da estreia conturbada.
A proposta declarada para o show desta edição também mudou: em vez de tentar controlar cada detalhe, Di Ferrero disse que queria simplesmente aproveitar o momento e ver o público, “tornando tudo mais sincero e humano” — uma resposta direta ao perfeccionismo que, segundo ele mesmo, o sabotou em 2011.
O que rolou no Palco Sunset
Na prática, o show equilibrou nostalgia e fase atual: faixas de SE7E — como “Som da Desilusão”, “Além do Fim” e “Unfollow” — dividiram espaço com clássicos do NX Zero, casos de “Razões e Emoções”, apontada como o maior momento de nostalgia da noite, além de “Pela Última Vez” e “Cedo ou Tarde”, com o público cantando em peso. Teve espaço até para uma homenagem rápida ao Nirvana e um cover inteiro dos Paralamas do Sucesso.
O momento mais comentado, porém, foi a participação de Danilo Cutrim, vocalista do Forfun e do Braza, amigo de longa data de Di Ferrero desde os tempos de apresentações no Hangar 110. Os dois dividiram o palco em uma colaboração animada que resgatou parte da cena do rock/pop brasileiro dos anos 2000 — a mesma geração que, segundo crítica recorrente, foi soterrada pela ascensão do YouTube e encontrou no Rock in Rio um dos poucos palcos que ainda a trata como relevante.
Acompanhado por Bruno Genz (guitarra), Marina Izaac (baixo), Thales Stipp (bateria), Letícia Meyer (guitarra) e Niko Kamada (teclados), Di Ferrero entregou, segundo relatos de quem estava na Cidade do Rock, um show enxuto — pouco menos de uma hora —, mas com plateia crescendo a cada música, sinal de que o “menino problema” de 2011 finalmente aprendeu a se divertir no próprio palco.
Quem é Di Ferrero hoje
Diego José Ferrero, o Di Ferrero, nasceu em Campo Grande (MS) em 11 de junho de 1985 e ficou conhecido nacionalmente como vocalista do NX Zero, banda paulistana que ajudou a definir o pop-rock brasileiro dos anos 2000 ao lado de nomes como Fresno e Restart. Depois da pausa da banda, seguiu carreira solo, sempre reafirmando o quanto aquela fase — inclusive os tropeços — segue moldando quem ele é em cima do palco hoje. E se o Rock in Rio de 2011 é lembrado por ele como sabotagem, o de 2026 já entra para a conta como o show em que, finalmente, ele deixou de se sabotar.
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