Festival de Cannes gastando pouco

Como conseguir viajar para o Festival de Cannes gastando pouco

Por Larissa Padron

 

Ir ao Festival de Cannes sempre foi um sonho. Eu queria trabalhar com cinema desde pequenininha (o que eu ainda sou, por sinal). E por isso sempre fui fascinada com premiações e festivais, tipo o Oscar e Cannes. Mas minha realidade sempre esteve bem distante disso. Sempre fui o tipo de classe média que nunca tinha dinheiro sobrando para viajar. Mas a realidade deu uma forcinha em 2014, pois fui selecionada para fazer um intercâmbio em Portugal e passar 6 meses estudando na Universidade do Porto. Segue minha história de como consegui viajar para o Festival de Cannes gastando pouco

Veja como conseguir viajar para o Festival de Cannes gastando pouco

Como conseguir o credenciamento de graça

Antes mesmo de ir para Portugal, já veio um pensamento na minha cabeça: “Nossa, em maio (época que ocorre o Festival de Cannes), eu estarei a bem menos km de distância dele do que estou hoje”. Mas ainda assim, parecia bem distante. Cara, o nome da região é Cote d’azur. Olha essa frescura! Eu era bolsista com dinheiro contadinho, não tinha grana para isso. Mas, o sonho era grande! Comecei a pesquisar e descobri que tentar credencial era de graça!!! Então, porque não, né?

O credenciamento é bem simples. É feito todo online, com opção em inglês, pelo site do Festival e são poucos documentos que eles pedem. Então, eu tentei credenciamento por dois veículos (um deles o Cinema de Buteco), para mim como jornalista e para meu marido como fotógrafo (minha cobertura foi em vídeo). E algumas semanas depois chegou a resposta tanto esperada: conseguimos!

E claro que a felicidade foi imensa, mas o desespero também. Tinha um mês para conseguir hospedagem e passagem sem quase nada de dinheiro!

 

O transporte de Porto a Cannes

 

O primeiro passo da saga da pobreza na Riviera Francesa foi comprar as passagens.

Na Europa, são conhecidas as companhias aéreas low cost, que fazem voos realmente baratos, sendo a Ryanair a mais famosa delas. Mesmo sendo uma bolsista mão de vaca, eu consegui conhecer sete países nesses seis meses. Devo metade deles à Ryanair. Nunca paguei mais de 30 euros para voar com ela, e isso em alta temporada e para longas distâncias.

O aeroporto mais próximo de Cannes fica em Nice, uma cidade de 300 mil habitantes, a 30 km de festival. Descobri que de Porto não tinha voos direto para Nice com uma low cost, mas encontrei um voo baratinho para Marselha, que fica a 200km de Cannes, e tem trens e ônibus não tão caros assim. Realmente, foram muitos transportes de Porto para o Festival. Além do voo, peguei ônibus, trem e metrô. E ainda me dei um pouco mal na volta porque os rodoviários entraram em greve e me restou um trem bem carinho para voltar para o aeroporto. Mas cada um se vira como pode, né?!

Uma dica valiosa para essas companhias aéreas é que somente a bagagem de mão que está inclusa na tarifa. Isso quer dizer, para eles, uma mala pequena de rodinha com até 10 kg. Vale a pena medir e pesar certinho antes porque as taxas caso tenha que despachar a mala são absurdas!!! E, claro, grandes casacos vão no corpo, né? Pode estar 40º C, mas passar calor é mais aceitável que pagar fortunas.

 

Hospedagem em Cannes

 

Minha maior preocupação era mesmo hospedagem, que eu já comecei a procurar ao mesmo tempo que as passagens. Uma simples pesquisa mostrou que se hospedar em Cannes nessa época é MUITO caro. Muitos jornalistas alugam um apê e dividem, mas ainda assim é caro. Comecei a procurar de dois jeitos: Airbnb e Couchsurfing.

Para quem não sabe, Airbnb é um site no qual as pessoas alugam a casa ou somente um quarto, por um preço que elas acham justo (e é sempre mais justo que hotel mesmo). Eu encontrei alguns quartos no Airbnb, em cidades próximas, que iam custar uns 30 euros por dia para o casal. Mas para 10 dias de festival, isso dá 300 euros. Isso, na época, daria 1000 reais, o que para mim era complicado…

Eu estava investindo mais força na busca por Couchsurfing, que é uma plataforma onde pessoas ao redor do mundo oferecem hospedagem gratuita na própria casa, sem cobrar nada. Na plataforma, há a descrição do tipo de espaço disponível e todas as informações de quem vai te receber. O que é bem útil para gente paranoica (tipo eu) stalkear. Mas existem grupos de Couchsurfing no Facebook também.

Em Cannes foi impossível achar esse tipo de acomodação para a época do festival. Quem mora lá quer lucrar nessa época do ano e eles conseguem. Mas nas cidades próximas, é possível. Consegui achar em Antibes, que fica apenas a 10km de Cannes. Fomos muito bem recebidos e dormimos confortavelmente em uma caminha por 10 dias, graças a uma boa alma brasileira a quem serei grata para sempre!

 

De Antibes a Cannes

 

De Antibes eu tinha que pegar um ônibus até a estação de trem, o que dava 5 minutos, e de lá o trem pra Cannes, o que dava mais 10 minutos. De onde estava, gastava apenas 15 minutos e uns 3 euros para chegar ao Festival.

A desvantagem de não se hospedar em Cannes é: os transportes para outras cidades encerram pouco antes da meia-noite. Então, eu nunca podia pegar sessões que começavam depois das 21h, porque corria o risco de perder meu último trem. De qualquer forma, as sessões mais tarde exigiam traje de gala e eu não tinha dinheiro para essas coisas.

 

Os gastos com alimentação

 

A minha alimentação foi péssima durante esses dez dias, mas nem tanto por dinheiro e sim porque não dava tempo de comer. Existe muita fila para tudo lá, principalmente, para ver os filmes. Gastava cerca de 12 horas por dia em filas e assistindo filmes. E ainda tinha que gravar vídeos, acompanhar edição e repercussão na internet. Não dava tempo de sair de dentro do Palais, espaço onde ocorre o festival.

 

Pelas normas você não pode entrar com comida, nem no Palais e nem nas salas de cinema. Para entrar nas salas, você e sua bolsa são revistados. E lá dentro você não compra comida que sustente e a preços acessíveis. Então, eu tomava um café da manhã muito reforçado antes de sair de casa e preparava lanchinhos que eram estrategicamente escondidos dentro da bolsa

 

Conseguia passar umas 15h apenas com essa alimentação. Comendo escondida e correndo porque eu morria de medo de ser pega. Mas engana-se quem acha que é super caro comer por lá. Tem várias opções mais baratas por perto: McDonalds, comida árabe, carrinhos de lanche na praia e um Carrefour (que mesmo considerando a conversão do Euro, não é muito mais caro que os Carrefour’s daqui).

 

Meu aprendizado foi: se eu conseguir passar 10 dias no Festival de Cannes gastando a mesma coisa (ou talvez até menos) do que eu gasto para viver normalmente no Brasil, é porque dá para se virar com pouco em qualquer lugar!

 

Uma experiência imperdível!

 

É uma experiência que eu recomendo para todo mundo. Cannes tem uma mega estrutura que recebe mais de 4 mil jornalistas de quase 100 países do mundo, além de produtores, cineastas e público em geral. Foi, com certeza, a maior experiência jornalística da minha vida ver isso de perto. Aprendi muito sobre logística e disciplina para dar conta de assistir cerca de 3 filmes por dia e cobrir tudo isso em vídeo.

 

É um clima muito gostoso na cidade durante o festival. Está todo mundo muito empolgado. Há um glamour nos iates e nas pessoas vestidas de gala na rua que contrasta com os profissionais correndo de um lado para o outro dentro do festival. Eu ainda aproveitei o último dia lá para fazer turismo. O trem que me levava todo dia para o festival passava por Mônaco e ia até a Itália e não era tão mais caro acrescentar esse trecho.

 

Fomos para Mônaco assistir ao treino do Grand Prix de Fórmula 1. Lá a corrida é na rua, então é possível ver trechos dela de viadutos. Mônaco é um país minúsculo e surreal, onde as pessoas estacionam suas Ferrari’s na rua mesmo. Depois fui para uma cidadezinha italiana chamada Ventimiglia, que era a última parada do trem. Fui lá fazer gordice apenas: comer sorvete e pizza.

Mas quem pode dizer que visitou três países em um só dia, não é mesmo? Foram 10 dias mágicos na minha vida. Além da experiência cultural, eu estive dentro de salas de cinema espetaculares, vi filmes incríveis junto com o primeiro grupo que assistiu a esses filmes no mundo e vi pessoas que eu admiro imensamente. Eu recomendo a todo mundo que tenha esse sonho a tentar.