“Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” não é apenas uma canção de protesto: é um manual ético disfarçado de marcha. Desde os primeiros versos, Geraldo Vandré deixa claro que não está falando de heróis individuais, mas de um corpo coletivo em movimento.
“Caminhando e cantando / E seguindo a canção”
Aqui, caminhar e cantar são ações inseparáveis. Não se trata de música como entretenimento, mas como ferramenta de coesão. A canção não é algo que se escuta passivamente: ela guia, organiza, dá ritmo ao deslocamento físico e simbólico das pessoas. O ato de cantar vira ato político.
Essa ideia se reforça imediatamente no verso seguinte:
“Somos todos iguais / Braços dados ou não”
Vandré propõe uma igualdade que não depende de uniformidade. Mesmo sem estarem literalmente de mãos dadas, todos compartilham a mesma condição histórica. É uma igualdade construída pela experiência comum — não pela ideologia abstrata. O “ou não” é crucial: a união não é obrigatória, mas inevitável, porque o contexto empurra todos para o mesmo chão.
Ao repetir imagens de espaços cotidianos —
“Nas escolas, nas ruas / Campos, construções”
— a música amplia seu alcance. A luta não pertence a um grupo específico: estudantes, trabalhadores, camponeses, operários, todos estão incluídos. Vandré dissolve fronteiras sociais para mostrar que a opressão também é transversal. O problema não está num lugar específico; ele atravessa todos os lugares.
O refrão, porém, é o coração ideológico da canção:
“Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer”
Esse verso virou slogan, cartaz, grito de rua — e não por acaso. Ele rompe com a lógica da passividade histórica. Esperar, aqui, não é prudência; é ignorância. Vandré critica diretamente a ideia de que mudanças profundas virão sozinhas, por desgaste natural do sistema ou concessão do poder. Saber, na música, não é ter informação — é agir.
A canção então se aprofunda na denúncia social:
“Pelos campos, há fome / Em grandes plantações”
Essa imagem é brutal justamente por sua simplicidade. Não é a fome causada pela escassez, mas pela desigualdade. O contraste entre “fome” e “grandes plantações” desmonta qualquer discurso de progresso vazio. O problema não é falta de produção, é concentração. Vandré aponta para a raiz estrutural da injustiça.
Nas ruas, o cenário muda, mas a confusão permanece:
“Pelas ruas, marchando / Indecisos cordões”
Aqui, não há romantização da multidão. Os “cordões” estão indecisos. A marcha existe, mas ainda falta clareza. Esse verso é honesto: nem todo movimento coletivo nasce consciente. Muitas vezes, as pessoas caminham primeiro e entendem depois. A música não exige pureza ideológica — exige disposição.
É nesse ponto que surge uma das metáforas mais célebres da canção:
“Acreditam nas flores / Vencendo o canhão”
As flores não são ingenuidade. São símbolo de resistência ética. Vandré não está dizendo que a delicadeza é mais forte fisicamente que a violência, mas que ela é mais duradoura moralmente. O canhão vence batalhas; as flores vencem narrativas. Essa oposição entre vida e morte, criação e destruição, atravessa toda a música.
A crítica ao militarismo se torna explícita nos versos seguintes:
“Há soldados armados / Amados ou não / Quase todos perdidos / De armas na mão”
O olhar aqui não é apenas acusatório, mas também trágico. Os soldados não são monstros: são jovens perdidos, presos a um papel que não escolheram. Vandré humaniza sem absolver. Eles são parte do problema, mas também vítimas dele.
Essa tragédia se aprofunda quando a letra diz:
“Nos quartéis lhes ensinam / Uma antiga lição / De morrer pela pátria / E viver sem razão”
A “antiga lição” é a pedagogia da obediência cega. Morrer ganha valor; viver perde sentido. Vandré inverte a lógica do heroísmo militar e expõe seu vazio existencial. Não há glória em morrer por uma abstração quando a vida concreta é negada.
No trecho final, a música faz seu movimento mais radical:
“Somos todos soldados / Armados ou não”
Essa é uma redefinição poderosa. Soldado deixa de ser função militar e passa a ser condição cidadã. Estar armado não significa portar fuzis, mas consciência. A luta não é apenas bélica; é simbólica, cultural, cotidiana.
A canção então se fecha com uma síntese quase pedagógica:
“Os amores na mente / As flores no chão / A certeza na frente / A história na mão”
Aqui está o projeto de Vandré: pensar com afeto, agir com delicadeza, caminhar com convicção e assumir responsabilidade histórica. A história não é algo que acontece depois; ela está sendo escrita agora, por quem escolhe andar — ou ficar parado.
Musicalmente, a estrutura repetitiva, quase de hino, não é acaso. Ela foi pensada para ser cantada em coro, nas ruas, sem instrumentos. A canção não pertence ao palco: pertence ao espaço público. Por isso foi censurada. Por isso sobreviveu.
“Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” não envelheceu porque não fala de um regime específico, mas de uma atitude diante do mundo. Ela não pede permissão, não promete conforto, não oferece atalhos. Ela apenas diz: caminhe. Cante. Faça a hora.
Porque esperar, como Vandré já avisava, não é saber.
Letra de Para Não Dizer Que Não Falei das Flores
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Pelos campos, há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas, marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

