“Gita” não é uma canção no sentido tradicional. É um manifesto metafísico cantado, uma experiência quase litúrgica dentro do rock brasileiro. Raul Seixas não escreve sobre algo: ele encarna uma ideia. E a ideia é radical — a dissolução do ego individual em algo maior, contraditório e absoluto.
Desde o início, a música estabelece que não estamos diante de um narrador comum.
1. “Foi justamente num sonho / Que ele me falou”
O ponto de partida não é racional, nem cotidiano. O sonho aqui não funciona como metáfora poética leve, mas como canal de revelação. Raul se coloca na tradição mística: aquilo que importa não vem do mundo prático, vem do simbólico, do inconsciente, do espiritual.
O conhecimento verdadeiro não é aprendido — é revelado. Isso já desloca o ouvinte para fora do campo da lógica comum.
2. “Às vezes você me pergunta / Por que é que eu sou tão calado”
Esse trecho estabelece um conflito clássico: quem vê mais, fala menos.
O silêncio não é timidez — é consequência de uma consciência ampliada. Raul sugere que explicar demais empobrece a experiência. Amor, divindade e existência não cabem em frases diretas.
Há aqui uma crítica implícita à necessidade constante de explicação, rótulo e definição. O “calado” não é vazio — é excesso.
3. A sequência obsessiva do “Eu sou”
Quando Raul começa a repetir “Eu sou”, a música muda de natureza. Não é mais confissão pessoal: vira declaração ontológica.
Ele não diz “eu sinto”, “eu penso” ou “eu acredito”. Ele diz “eu sou” — verbo absoluto, bíblico, fundador. É impossível ouvir essa sequência sem lembrar da frase atribuída a Deus no Antigo Testamento: “Eu sou aquele que sou”.
Mas Raul subverte isso. Ele não se coloca como um deus separado do mundo, e sim como o próprio tecido da realidade.
luz e medo
força e blefe
sacrifício e prazer
tudo e nada
Aqui, o ponto central é: não existe pureza isolada. O divino não está só no que é belo, justo ou luminoso. Ele também está no erro, no engano, no medo, na contradição.
Essa visão quebra a moral tradicional. Não há separação clara entre bem e mal — há totalidade.
4. “Eu sou a placa de contramão”
Esse é um dos versos mais reveladores da canção. A contramão não é apenas oposição: é desobediência consciente.
Raul se assume como aquilo que desorienta, que interrompe o fluxo automático. Ele se coloca contra o caminho único, contra o consenso confortável. Ser “contramão” é ser incômodo, mas necessário para revelar que a estrada talvez esteja errada.
É uma definição perfeita do próprio Raul Seixas como figura cultural.
5. “Você me tem todo dia / Mas não sabe se é bom ou ruim”
Aqui, a música abandona o plano cósmico e volta ao humano — mas sem perder a complexidade.
Esse trecho fala da relação das pessoas com a própria essência. O divino, o sentido, a verdade interior estão presentes, mas causam desconforto. Olhar para si mesmo profundamente não é confortável. Não se sabe se é bom ou ruim — porque obriga à responsabilidade.
E então vem a frase mais dura do bloco:
“Mas saiba que eu estou em você / Mas você não está em mim”
Isso desmonta qualquer leitura narcisista da música. Raul não diz que ele é especial. Ele diz que o todo habita cada um, mas nem todos escolhem habitá-lo de volta. É uma acusação direta à alienação, à vida automática, à recusa de consciência.
6. “Eu sou a mosca da sopa / E o dente do tubarão”
Aqui Raul entra no território do grotesco. O divino não é só luz, estrela e luar. Ele também é o que incomoda, o que fere, o que estraga o conforto.
A mosca na sopa quebra a ilusão de pureza. O dente do tubarão lembra que a natureza não é gentil — ela é verdadeira. Esse trecho é quase um tapa na espiritualidade açucarada: não existe transcendência sem desconforto.
7. “O início / O fim / E o meio”
O encerramento da música é circular — e isso não é acaso. Raul não conclui, não resolve, não fecha. Ele engloba.
Essa tríade ecoa diretamente o pensamento oriental e místico: tudo nasce, tudo morre, tudo continua. O sentido não está no começo nem no fim, mas na travessia.
“Gita” termina reafirmando que a existência não é linear, nem moral, nem simples. Ela é total.
Em síntese
“Gita” não pede que você acredite em algo. Ela pede que você suporte a ideia de que:
-
você é maior do que seu nome
-
menor do que seu ego
-
contraditório por natureza
-
e inseparável do mundo
Raul Seixas não entrega conforto. Ele entrega vertigem.
E talvez por isso “Gita” continue sendo menos uma música — e mais um ritual de escuta.
Letra de Gita
Eu, que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando
Foi justamente num sonho
Que ele me falou
Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao teu lado
Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar
Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar
Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou
Eu fui
Eu vou (Gita, Gita, Gita, Gita, Gita)
Eu sou o seu sacrifício
A placa de contramão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição
Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou
O tudo
E o nada
Por quê? Você me pergunta
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar
Você me tem todo dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim
Das telhas, eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos, eu sou o amor
Eu sou a dona de casa
Nos peg-pags do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso
Largo
Profundo (Gita, Gita, Gita, Gita, Gita)
Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão
É, mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início
O fim
E o meio
O início
O fim
E o meio
Eu sou o início
O fim e o meio
Eu sou o início
O fim
E o meio

