Neil Peart Rush

A banda que Neil Peart chamou de “a mais barulhenta do mundo”: “o alto-falante foi dominado”

Neil Peart, o lendário baterista do Rush, não era exatamente o tipo de músico que se impressionava facilmente. Com sua precisão quase matemática, suas letras cheias de filosofia e ficção científica, e uma técnica que fez dele um dos maiores de todos os tempos, Peart era o tipo de artista que ouvia tudo — com atenção, critério e exigência. Mas teve uma banda que bagunçou tudo isso. Uma que, literalmente, estourou o som da televisão da casa dele. [Via Far Out Magazine]

Blue Cheer.

Antes de baterias com 23 peças, solos de 8 minutos e palhetadas que pareciam arrancar trovões da guitarra de Alex Lifeson, Peart foi só um moleque canadense tentando escutar música baixinho pra não incomodar os pais. Mas quando Blue Cheer apareceu na tela, nem o volume no mínimo foi suficiente: o som era tão alto, sujo e distorcido que os alto-falantes da TV quase implodiram.

“O alto-falante foi dominado com estática e distorção”, lembrou Peart.
“Paul Whaley espancava os pratos com os dois braços, Leigh Stephens era uma ameaça cabeluda moendo riffs espessos, e Dickie Peterson urrava por trás de uma pirâmide de cabelo loiro com o baixo pendurado lá no joelho.”

Blue Cheer talvez não tenha o mesmo reconhecimento que Led Zeppelin ou Black Sabbath, mas Peart os considerava os verdadeiros pioneiros da pancadaria sonora. E não era exagero: o disco Vincebus Eruptum (1968) soa até hoje como um cruzamento entre um motor de Harley-Davidson e uma ogiva nuclear.

Muito volume, pouca estrutura — e ainda assim, revolucionário

A versão de Summertime Blues que o Blue Cheer gravou não foi apenas uma reinterpretação. Foi um atentado sonoro. Enquanto o The Who havia levado a faixa ao rock com energia e teatralidade, o trio californiano explodiu tudo numa parede de distorção, amplificadores no 11 e caos controlado (ou nem tanto).

Neil Peart, ao ouvir aquilo, não pensou só em potência. Pensou em direção. Enquanto o Blue Cheer entregava barulho bruto, Rush viria anos depois como o oposto complementar: estrutura e sofisticação com o mesmo impacto. Era como se o trio canadense tivesse pego a força bruta e colocado em forma — sem nunca perder a alma barulhenta.

Um trio respeita o outro

Rush sempre foi uma anomalia no rock: três músicos soando como seis. Peart admirava o formato de trio justamente por isso — exige entrega total de cada integrante. E mesmo com toda a técnica e controle que desenvolveu, o espírito rebelde do Blue Cheer permaneceu como uma referência inicial.

Pode parecer estranho imaginar o cerebral Neil Peart emocionado com uma banda que parecia sair de uma garagem em chamas, mas talvez seja justamente aí que mora a admiração: Blue Cheer mostrou o poder do rock em sua forma mais crua e selvagem. E isso, mesmo para um mestre da técnica, era algo digno de reverência.

Enquanto o mundo lembra do Rush pela precisão e da grandiosidade de álbuns como 2112 ou Moving Pictures, Peart nunca esqueceu do impacto visceral de ouvir Blue Cheer pela primeira vez. Um trio fazendo o impossível: ser mais alto que o mundo.