the cure In Between Days

A conta de bar insana que quase acabou com o The Cure: “A banda estava desmoronando”

Existe uma fantasia romântica sobre turnês: hotéis luxuosos, aplausos intermináveis, noites épicas e glamour eterno. Mas para o The Cure, em 1982, a realidade foi outra. A turnê de Pornography não foi uma celebração — foi uma implosão em câmera lenta. E quase terminou por causa de… uma conta de bar, segundo o Far Out Magazine.

Sim, uma simples briga por bebidas não pagas quase sepultou uma das bandas mais importantes da história do rock alternativo.

O inferno chamado Pornography

Quando o The Cure lançou Pornography, o disco já nascia pesado — musical e emocionalmente. O clima sombrio que domina o álbum refletia exatamente o que acontecia fora do estúdio. O consumo excessivo de álcool e drogas virou rotina. Discussões diárias eram seguidas por noites de tensão e ressentimento.

Robert Smith admitiu anos depois que aquela fase foi autodestrutiva.

“Durante Pornography, a banda estava desmoronando por causa da bebida e das drogas.”

O palco também refletia esse estado mental. A cenografia era confrontadora, quase claustrofóbica. Nada ali era confortável — nem para o público, nem para os próprios músicos.

Estrasburgo, 27 de maio de 1982

A implosão final aconteceu na França.

Depois de um show decepcionante e com público abaixo do esperado, a tensão entre Robert Smith e o baixista Simon Gallup já estava no limite. O estopim? Um bar local. Algumas bebidas. E alguém alegando que a conta não havia sido paga.

Segundo relatos posteriores, Gallup foi abordado por um funcionário cobrando as bebidas. Ele acreditava que Robert não estava pagando as próprias contas. Robert acreditava que aquilo era um exagero.

Discussão.
Gritos.
Orgulho ferido.
E então… socos.

Gallup relembrou que tudo começou como um mal-entendido. Smith, por sua vez, disse que o baixista estava “tão irritado que ninguém conseguia falar com ele”.

O que era apenas mais uma noite ruim virou uma briga física entre os dois.

“É isso. Acabou.”

Robert Smith decidiu sair imediatamente. Pegou um táxi, voltou para o hotel, arrumou a mala, pegou o passaporte e embarcou no primeiro voo para Londres às 6h30 da manhã.

Ele deixou um bilhete dizendo que não voltaria.

Fim da banda?

Quase.

O curioso é que o responsável por evitar o colapso definitivo não foi empresário, gravadora ou colega de banda. Foi o pai de Robert Smith.

Ao chegar em casa, esperando abrigo e compreensão, Smith ouviu:

“Você tem uma responsabilidade. As pessoas compraram ingressos. Volte e termine a turnê.”

E ele voltou.

Mas o dano estava feito.

O show que parecia um funeral

No último show da turnê, a situação estava insustentável. Simon Gallup chegou a gritar no microfone: “Robert Smith é um c***”.

Smith respondeu jogando baquetas e gritando para ele sair.

O baterista Lol Tolhurst descreveu aquela noite como “a morte daquela versão do The Cure”.

Gallup deixaria a banda logo depois.

O paradoxo da destruição

Ironia cruel: foi justamente após esse colapso que o The Cure entrou em sua fase mais criativa e vitoriosa. Simon Gallup retornaria alguns anos depois. A química renasceria. Vieram The Head on the Door, Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me, Disintegration.

Mas aquele momento em Estrasburgo ficou como o ponto mais frágil da história do grupo.

Não foi uma grande decisão artística.
Não foi uma disputa por direitos autorais.
Não foi pressão da gravadora.

Foi uma conta de bar.

A moral da história

Bandas não acabam apenas por grandes dramas épicos. Às vezes, elas quase acabam por algo pequeno que carrega meses — ou anos — de tensão acumulada.

Em 1982, o The Cure estava exausto, intoxicado e emocionalmente fragmentado. A conta era só o símbolo de algo maior.

E talvez seja por isso que Pornography soe tão visceral até hoje.

Porque ele não foi apenas gravado.
Ele foi vivido.

E quase custou tudo.