“Tudo Que Vai” é uma daquelas músicas que não gritam dor — elas sussurram. E justamente por isso doem mais. O Capital Inicial constrói aqui uma canção sobre término, ausência e esquecimento que não se apoia no drama explícito, mas numa sensação muito mais cotidiana e cruel: o momento em que a falta deixa de doer e passa a fazer parte do cenário.
Logo nos primeiros versos, o clima é estabelecido com precisão cirúrgica:
“Hoje é o dia / E eu quase posso tocar o silêncio”
Não é qualquer silêncio. É o silêncio físico, palpável, aquele que ocupa espaço. A casa não está apenas quieta — ela está cheia de ausência. O verbo “tocar” dá corpo ao vazio, como se o silêncio tivesse textura. É um começo que já indica: essa música não é sobre o auge da dor, mas sobre o depois, quando tudo já aconteceu.
A imagem da casa reforça isso:
“A casa vazia / Só as coisas que você não quis / Me fazem companhia”
Aqui mora uma das ideias mais fortes da canção. Não são os objetos importantes que ficaram, mas os restos. Aquilo que não foi levado porque não valia a pena. São esses resíduos do relacionamento que passam a fazer companhia — uma companhia involuntária, quase irônica. O que sobra não é o amor, é o esquecimento em forma de móveis, paredes e silêncio.
Em vez de desespero, o eu lírico admite algo desconcertante:
“Eu fico à vontade com a sua ausência / Eu já me acostumei a esquecer”
Esse é o ponto em que a música vira faca. Não há revolta, não há súplica. Há adaptação. E isso assusta mais do que o sofrimento explícito. A frase não diz “aprendi a viver sem você”, diz algo mais duro: aprendi a esquecer. O esquecimento aparece como hábito, como rotina emocional.
O refrão cristaliza a tese da música:
“Tudo que vai / Deixa o gosto, deixa as fotos”
Nada desaparece completamente. O que vai sempre deixa rastro. Mas repare: não são grandes lembranças, são sensações vagas — gosto, fotos, memória tátil. O amor vira vestígio sensorial. Não é mais sentimento, é arquivo.
Quando a pergunta surge —
“Quanto tempo faz”
— ela não busca resposta. É retórica. O tempo já perdeu a medida. Isso fica ainda mais claro quando a letra admite:
“Eu nem me lembro”
O esquecimento aqui não é total, é confuso. Há lembranças, mas elas não se organizam mais em narrativa. São fragmentos.
Essa fragmentação aparece de forma belíssima no segundo bloco:
“Salas e quartos / Somem sem deixar vestígio”
Os espaços da intimidade — onde o amor aconteceu — simplesmente desaparecem. Não é que foram esvaziados; eles deixaram de existir emocionalmente. A casa continua de pé, mas os cômodos perderam significado.
O rosto da pessoa amada também não é mais inteiro:
“Seu rosto em pedaços / Misturado com o que não sobrou / Do que eu sentia”
Aqui o Capital Inicial traduz algo muito real: quando o sentimento acaba, a imagem do outro se desfaz. Não se lembra mais do rosto completo, mas de pedaços desconexos, misturados com emoções que já não existem. A memória não apaga — ela distorce.
Um dos versos mais melancólicos da música surge quase sem alarde:
“Eu lembro dos filmes que eu nunca vi / Passando sem parar em algum lugar”
Esse trecho é devastador. Os “filmes que eu nunca vi” são as vidas que poderiam ter sido, os futuros que não aconteceram. Eles continuam passando, como se o mundo seguisse projetando possibilidades que já não incluem o eu lírico. É o luto não só da pessoa, mas do futuro imaginado.
Quando o refrão retorna, há uma mudança sutil, mas essencial:
“Fica o gosto, ficam as fotos / Ficam os dedos, fica a memória”
Antes, tudo deixava. Agora, tudo fica. Mas ficar não significa permanecer vivo — significa permanecer inerte, como um objeto esquecido numa gaveta. A repetição funciona como um mantra de aceitação: não dói mais, mas também não aquece.
A confusão identitária aparece de forma explícita:
“Quanto tempo / Eu já nem sei mais o que é meu / Nem quando, nem onde”
Quando alguém vai embora, leva junto referências. O eu lírico não perde só o outro — perde o próprio contorno. Tempo, espaço e identidade se misturam. Não saber “o que é meu” é um efeito colateral do amor que acabou sem explosão.
E então vem o golpe final, repetido até perder o peso — ou justamente para mostrar como ele perdeu:
“Eu nem me lembro mais”
A repetição não é exagero: é desgaste. Cada vez que a frase volta, ela soa menos dramática, mais automática. É assim que o esquecimento acontece na vida real — não como um apagão, mas como um desbotamento lento.
“Tudo Que Vai” é uma música madura porque não tenta embelezar o fim. Ela entende que o verdadeiro trauma, muitas vezes, não é a dor intensa, mas o dia em que você percebe que a ausência já não incomoda tanto assim. Que a casa está vazia, mas você aprendeu a circular nela. Que as fotos ainda existem, mas já não dizem muito.
No fim, o Capital Inicial entrega uma verdade incômoda e profundamente humana:
nem tudo que acaba deixa cicatriz.
Às vezes, deixa só silêncio.
Letra de Tudo Que Vai
Hoje é o dia
E eu quase posso tocar o silêncio
A casa vazia
Só as coisas que você não quis
Me fazem companhia
Eu fico à vontade com a sua ausência
Eu já me acostumei a esquecer
Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro
Salas e quartos
Somem sem deixar vestígio
Seu rosto em pedaços
Misturado com o que não sobrou
Do que eu sentia
Eu lembro dos filmes que eu nunca vi
Passando sem parar em algum lugar
Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais
Fica o gosto, ficam as fotos
Quanto tempo faz
Ficam os dedos, fica a memória
Eu nem me lembro mais
Quanto tempo
Eu já nem sei mais o que é meu
Nem quando, nem onde
Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais
Fica o gosto, ficam as fotos
Quanto tempo faz
Ficam os dedos, fica a memória
Eu nem me lembro mais
Eu nem me lembro mais
Eu nem me lembro mais
Eu nem me lembro mais
Eu nem me lembro mais

