Review AC/DC @ MorumbBis, São Paulo — 24/02/2026

Há bandas que envelhecem. Há bandas que viram patrimônio histórico. E há o AC/DC, que parece ter assinado algum contrato suspeito com o diabo do rock para continuar funcionando como um motor V8 mesmo depois de meio século na estrada.

Depois de 16 anos longe do Brasil, Angus Young e Brian Johnson finalmente voltaram — e a primeira das três apresentações no MorumBIS foi exatamente aquilo que 70 mil pessoas esperavam: um ritual coletivo de riffs, suor e nostalgia em volume máximo.

Não foi apenas um show. Foi uma confirmação de que certas coisas simplesmente não quebram.


O rock ainda mora naquele uniforme escolar

A primeira coisa que se percebe quando o AC/DC entra no palco é que a fórmula continua exatamente a mesma. E isso é uma boa notícia.

Angus Young aparece de uniforme escolar — agora com um toque verde e amarelo — e imediatamente começa a pular pelo palco como se tivesse 25 anos e não 70. O riff inicial de “If You Want Blood (You Got It)” já faz o estádio inteiro entender que o show não vai ter introdução lenta, nem aquecimento. É ataque direto.

Logo depois vem “Back in Black”, um dos maiores riffs já gravados na história da música popular. Nesse momento fica claro que, mesmo que Brian Johnson já não tenha o mesmo alcance vocal de décadas atrás, o público está pronto para cantar tudo por ele.

E canta.


Brian Johnson: menos potência, mais alma

Johnson, hoje com 78 anos, não tenta fingir que o tempo não passou. Ele não precisa. O vocal pode ter perdido algumas engrenagens, mas a energia e o carisma continuam intactos.

Entre uma música e outra, ele interage pouco — algo típico do AC/DC — mas cada sorriso parece carregar um sentimento real de gratidão. É o tipo de artista que ainda parece genuinamente feliz por estar no palco.

E isso, para uma banda que começou em 1973, vale muito.


Angus Young ainda é um animal de palco

Se existe um motor no AC/DC, ele atende pelo nome de Angus Young.

Durante “Thunderstruck”, o estádio inteiro vira um coral ensandecido enquanto o riff hipnótico ecoa. E Angus, com seus passos frenéticos e seus pulinhos clássicos, continua fazendo aquilo que sempre fez: transformar guitarra em espetáculo físico.

O ápice chega no solo de “Let There Be Rock”, que passa facilmente dos dez minutos. Angus sobe em uma plataforma elevada, desfila pela passarela do palco e entrega uma aula de guitarra com a mesma convicção de quem ainda tem algo a provar.

O mais impressionante? Ele não parece cansado.


O espetáculo ainda é puro AC/DC

A produção do show não tenta reinventar nada — e nem precisa.

Há sinos gigantes em “Hell’s Bells”, fogo explodindo em “Highway to Hell”, e claro, os lendários canhões em “For Those About to Rock (We Salute You)”.

Sim, ainda existem canhões no palco.
Sim, ainda é maravilhoso.

Mesmo algumas atualizações tecnológicas — como a versão digital da boneca em “Whole Lotta Rosie” — não tiram o espírito clássico do espetáculo.


Um setlist feito para veteranos e iniciantes

A turnê leva o nome do disco mais recente, “Power Up” (2020), mas isso é quase irrelevante. O show é, essencialmente, uma celebração de cinco décadas de clássicos.

Entre os destaques da noite:

  • Back in Black

  • Thunderstruck

  • Highway to Hell

  • T.N.T.

  • Dirty Deeds Done Dirt Cheap

  • Jailbreak

  • For Those About to Rock

É o tipo de repertório que faz qualquer fã perceber que está diante de uma das discografias mais sólidas do rock.


Um provável adeus — mas um adeus glorioso

Com Angus aos 70 e Brian aos 78, existe sempre aquela sensação silenciosa de que cada turnê pode ser a última.

Mas se este realmente for o capítulo final do AC/DC no Brasil, ele aconteceu da maneira certa:
com um estádio lotado, riffs eternos e canhões disparando no céu de São Paulo.

Porque no fim das contas, o AC/DC nunca foi sobre virtuosismo excessivo ou reinvenção musical.

Sempre foi sobre algo muito mais simples — e muito mais poderoso.

Riffs. Volume. Energia.

E enquanto Angus Young ainda estiver pulando pelo palco, o rock continuará vivo.


Nota: 9/10
O tempo passa para todos — mas aparentemente não para o AC/DC.

https://www.youtube.com/watch?v=v2AC41dglnM