Antes de se tornar uma das vozes mais reconhecíveis do rock alternativo, Chino Moreno era apenas mais um adolescente tentando entrar em uma banda em Sacramento, na Califórnia.
E como toda boa história de rock, a entrada dele no Deftones não aconteceu por acaso — nem foi imediata.
Na verdade, passou por audição, concorrência… e uma cover decisiva.
Antes do Deftones ser “o Deftones”
Hoje é fácil esquecer, mas o Deftones não nasceu pronto.
No fim dos anos 1980, a banda ainda era um projeto em formação, cheio de experimentações e dúvidas sobre qual caminho seguir. O grupo já contava com nomes como Stephen Carpenter, mas ainda buscava uma identidade — especialmente no vocal.
Segundo Dominic Garcia, um dos fundadores da banda, o Deftones passou um bom tempo apenas fazendo jams e tentando entender que tipo de som queria construir.
Depois de cerca de um ano nesse processo, veio a decisão: era hora de encontrar um vocalista.
A ideia inicial era bem diferente
Curiosamente, o perfil de vocalista que a banda buscava no começo não era exatamente o que o público conhece hoje.
De acordo com Garcia, havia um desejo — especialmente por parte de Stephen Carpenter — de ter alguém com pegada mais voltada ao rap.
Isso faz sentido quando se lembra do contexto da época: o final dos anos 80 e início dos 90 estavam vendo o crescimento do hip-hop e suas misturas com o rock, algo que depois explodiria com o nu metal.
O primeiro candidato testado, inclusive, seguia exatamente essa linha.
Era um MC chamado Gilbert, descrito como “muito bom” dentro dessa proposta.
Mas aí entrou em cena alguém completamente diferente.
O boato que levou Chino até a audição
Chino Moreno não era um estranho para o grupo.
Segundo Garcia, eles se conheciam desde a escola — literalmente desde a infância. Mas não eram exatamente amigos próximos.
O que levou Chino até a audição foi um detalhe curioso: um boato.
Dizia-se que ele sabia cantar.
Mais especificamente, que costumava aparecer em festas cantando músicas do The Smiths — o que, convenhamos, já indica um tipo bem específico de sensibilidade musical.
Ou seja: enquanto a banda pensava em rap, surge um cara com referências mais melancólicas e alternativas.
Era uma mistura improvável.
Mas decidiram testar mesmo assim.
A cover que decidiu tudo
Para a audição, o Deftones escolheu uma música de Danzig.
Dominic Garcia não lembra exatamente qual faixa foi — o que só torna a história ainda mais “raiz” —, mas uma coisa ficou clara:
Chino mandou muito bem.
A escolha de Danzig não foi aleatória. A banda tinha um som mais pesado, sombrio e carregado de influência do metal e do punk — um terreno perfeito para testar presença, atitude e potência vocal.
E foi ali que Moreno mostrou algo que talvez nem ele soubesse que tinha.
Não era rap.
Não era exatamente metal tradicional.
Era outra coisa.
Uma mistura de intensidade, melodia e emoção que mais tarde se tornaria a assinatura do Deftones.
O primeiro show: pagando para tocar
Depois da escolha de Chino, a banda ainda estava longe de qualquer glamour.
O primeiro show do Deftones aconteceu no The Cattle Club, em Sacramento — um lugar clássico da cena underground local.
Mas aqui vem outro detalhe que parece saído de um manual do rock independente:
a banda pagou para tocar.
Foram cerca de 100 dólares para conseguir o espaço, além da obrigação de vender ingressos para amigos.
Nada de hype, nada de gravadora, nada de multidões.
Só vontade, improviso e um grupo tentando fazer barulho suficiente para ser ouvido.
O detalhe que mudou o destino da banda
O mais interessante dessa história é perceber como tudo poderia ter sido diferente.
Se a banda tivesse seguido a ideia inicial e escolhido um vocalista mais voltado ao rap, talvez o Deftones tivesse se tornado apenas mais um grupo dentro da onda do nu metal dos anos 90.
Mas a entrada de Chino Moreno mudou completamente o DNA do som.
Ele trouxe:
- influência alternativa
- sensibilidade melódica
- dinâmica emocional (do sussurro ao grito)
Isso abriu espaço para que o Deftones transitasse entre o peso e a atmosfera — algo que poucas bandas conseguiram fazer com tanta identidade.
De audição improvisada a ícone cult
O mais irônico de tudo?
Aquele cara que entrou cantando uma cover em uma audição meio despretensiosa virou um dos vocalistas mais respeitados do rock moderno.
Com discos como White Pony e uma carreira marcada por reinvenções, o Deftones deixou de ser apenas mais uma banda pesada para se tornar uma referência artística.
E pensar que tudo começou com:
- um boato de que ele cantava bem
- uma cover de Danzig
- e uma audição sem grandes expectativas
Rock é isso: imprevisível
Histórias como essa reforçam uma verdade clássica da música:
não existe fórmula.
O Deftones quase seguiu um caminho completamente diferente.
Mas bastou uma escolha fora do padrão — apostar em alguém inesperado — para criar algo único.
E talvez seja exatamente isso que separa bandas boas de bandas que marcam época.
Fonte: entrevista de Dominic Garcia à revista Metal Hammer (via The PRP).

