Existe um single de “Whole Lotta Love” que, segundo o próprio Led Zeppelin, não deveria existir. E ele acaba de reaparecer na televisão britânica, num lugar bem pouco rock’n’roll: o Antiques Roadshow, programa da BBC em que gente comum leva tralhas de família para um especialista dizer quanto valem. Desta vez, a tralha tinha riff de Jimmy Page.

A descoberta foi destacada pela NME nesta terça-feira (6/10), e a história é daquelas que fazem colecionador de vinil perder o sono: um compacto de 7 polegadas de 1969, prensado pela Atlantic Records, que a banda mandou recolher e destruir.
Que single é esse, afinal?
Segundo a NME, o disco levado ao programa, gravado no Castelo de Caerphilly, no País de Gales, é uma prensagem em 7 polegadas de “Whole Lotta Love”, faixa de abertura do segundo álbum da banda, Led Zeppelin II. Até aí, nada de mais. O detalhe é que o Zeppelin tinha uma política rígida e quase religiosa: nada de singles. A banda entendia que sua obra era o álbum inteiro, e quem quisesse ouvir “só a música do riff” que comprasse o LP e aguentasse o resto.
De acordo com a reportagem, o empresário Peter Grant, o homem que tratava o Zeppelin como um cofre blindado, mandou recolher e destruir todas as cópias do compacto. Eram cerca de 500 unidades da prensagem da Atlantic. Pelo visto, uma escapou da fogueira.
Como o disco foi parar na mão de um DJ de festinha
O dono do disco contou ao programa que o conseguiu no começo dos anos 1970, quando procurava discos para montar uma disco (no sentido de pista de dança, não do gênero). Um sujeito tirou alguns compactos da bolsa e disse algo como “pode levar esses”. Entre eles, estava a relíquia que o Led Zeppelin queria ver pelas costas.
E aqui entra a parte mais deliciosa: segundo o relato, o disco “esvaziava a pista” quando tocava. Faz sentido. Colocar blues-rock pesado, com gemidos de Robert Plant e uma seção de efeitos psicodélicos no meio, numa pista de dança de 1971 era pedir para o povo ir pegar uma cerveja. O dono ainda comentou que não pretende tocá-lo de novo, porque isso desvalorizaria o item.
Quanto vale o single raro de Whole Lotta Love?
O especialista Marc Allum afirmou que o vinil “não deveria nem existir” no Reino Unido e disse ser difícil cravar um preço. A estimativa de leilão ficou em torno de mil libras (algo na casa dos R$ 7 mil, dependendo do câmbio do dia). Para um item que deveria ter virado lixo por ordem do empresário, até que é uma boa aposentadoria para um disco de pista de dança.
Vale lembrar que os valores são estimativas feitas na TV, e o preço real de um item desses depende de estado de conservação, procedência e, principalmente, de dois colecionadores brigando num leilão. Se aparecerem dois fãs de Zeppelin com carteira cheia, esse número vira apenas uma sugestão educada.
Por que o Led Zeppelin não queria singles?
A fama de “banda de álbum” não era frescura. No fim dos anos 1960, o mercado vivia de singles de três minutos para tocar no rádio, e o Zeppelin queria justamente o contrário: ser levado a sério como artista de LP, com capa, ordem das faixas e fôlego longo. Peter Grant defendia que a banda não precisava do rádio pop para existir, e a estratégia funcionou. Sem single, sem programa de auditório e com shows enormes, a banda virou um mito.
A ironia é que “Whole Lotta Love” acabou saindo em compacto nos Estados Unidos, onde virou um grande sucesso, e a banda convivia com isso meio a contragosto. Já a história de como o grupo começou, e de como tocar junto pela primeira vez já foi um evento, a gente contou em Qual foi a primeira música que o Led Zeppelin tocou junto?. E, se você quer saber de outro momento em que o Robert Plant preferiria que o mundo esquecesse, leia o ad-lib da risada.
O que essa história ensina sobre colecionar disco raro
Primeiro: o que o artista renega costuma virar ouro para o colecionador. Prensagens recolhidas, capas censuradas e erros de gravação são o pão com manteiga do mercado de vinil raro. Segundo: o lugar mais improvável pode guardar um tesouro, seja o porão da casa da vó, uma caixa de feira ou, neste caso, a pista de uma discoteca dos anos 1970.
Terceiro, e mais importante: antes de jogar fora aquela pilha de compactos empoeirados do seu tio, dê uma olhada nos selos e nos números de série. Pode ser um Zeppelin, pode ser um Raul Seixas de tiragem curta, pode ser só um disco do Roberto Carlos mesmo, que também tem seu valor sentimental.
Resumo rápido
Um compacto de “Whole Lotta Love” de 1969, que o Led Zeppelin mandou destruir por ir contra a política de não lançar singles, apareceu no Antiques Roadshow e foi avaliado em cerca de mil libras, segundo a NME. Se você tem um desses guardado, boa sorte, e não toque na pista de dança.
Nota de copyright: este texto não reproduz trechos da letra de “Whole Lotta Love”, apenas contexto e paráfrase, conforme a Lei 9.610/98.

