Faixa de Ventura (2003), “O Velho e o Moço” é uma das canções em que os Los Hermanos mais escancaram a sua marca: intimidade, dilema e poesia do cotidiano. Em vez de um eu lírico estável, a música encena um diálogo interno — o “velho” que sabe dos limites e o “moço” que gosta do risco — para falar de tempo, identidade e responsabilidade pelas próprias escolhas.
Desenvolvimento e composição
Com arranjo contido e clima de confissão, a canção alterna imagens simples (“jornal”, “fila do pão”, “acaso”) e declarações de postura (“aceito a condição”). Não há moral da história: há vozes que se tensionam. Essa ambiguidade — tão cara ao universo do Ventura — permite ler a música como um debate entre prudência e impulso, maturidade e ímpeto, sem que uma anule a outra.
Significado da letra
“Deixo tudo assim / Não me importo em ver a idade em mim / Ouço o que convém / Eu gosto é do gasto”
Abertura de aceitação: reconhecer “a idade” é acolher marcas, sem lutar contra elas. “Gosto é do gasto” enxerga beleza no usado, no que já viveu.
“Sei do incômodo e ela tem razão / Quando vem dizer, que eu preciso sim / De todo o cuidado”
O “velho” fala: cuidado, medida, preservação. Há afeto na crítica — o conselho aponta para autoconsciência.
“E se eu fosse o primeiro a voltar / Pra mudar o que eu fiz / Quem então agora eu seria?”
Hipótese de arrependimento que esbarra na identidade: mexer no passado desmonta quem sou hoje. A pergunta suspende a fantasia do “e se”.
“Ah, tanto faz / Que o que não foi não é / Eu sei que ainda vou voltar / Mas eu, quem será?”
Filosofia do irrevogável: o que não aconteceu, não existe. Haverá retorno (ciclos), mas cada volta traz outro “eu”.
“Deixo tudo assim / Não me acanho em ver vaidade em mim / Eu digo o que condiz / Eu gosto é do estrago”
Entra o “moço”: admite vaidade e gosto pelo impacto (“estrago”). A franqueza não disfarça o risco.
“Sei do escândalo / E eles têm razão / Quando vêm dizer / Que eu não sei medir / Nem tempo e nem medo”
Autocrítica: falta medida; o moço reconhece imprudência. É um acerto de contas com o próprio excesso.
“E se eu for / O primeiro a prever / E poder desistir / Do que for dar errado?”
Nasce uma prudência possível: prever e desistir a tempo. O moço testa limites sem abdicar do tato.
“Ora, se não sou eu / Quem mais vai decidir / O que é bom pra mim? / Dispenso a previsão”
Virada de autonomia: ninguém decide por mim. Recusa de oráculo: a vida não é script.
“Ah, se o que eu sou / É também o que eu escolhi ser / Aceito a condição”
Núcleo ético da canção: responsabilidade. Sou também as minhas escolhas — e aceito o que vem com elas.
“Vou levando assim / Que o acaso é amigo do meu coração / Quando fala comigo / Quando eu sei ouvir”
Fecho de concerto entre velho e moço: o acaso não é inimigo, é sinal — desde que eu saiba escutar. Maturidade aqui é atenção.
Letra de O Velho e o Moço
Deixo tudo assim
Não me importo em ver a idade em mim
Ouço o que convém
Eu gosto é do gasto
Sei do incômodo e ela tem razão
Quando vem dizer, que eu preciso sim
De todo o cuidado
E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz
Quem então agora eu seria?
Ah, tanto faz
Que o que não foi não é
Eu sei que ainda vou voltar
Mas eu, quem será?
Deixo tudo assim
Não me acanho em ver
Vaidade em mim
Eu digo o que condiz
Eu gosto é do estrago
Sei do escândalo
E eles têm razão
Quando vêm dizer
Que eu não sei medir
Nem tempo e nem medo
E se eu for
O primeiro a prever
E poder desistir
Do que for dar errado?
Ah
Ora, se não sou eu
Quem mais vai decidir
O que é bom pra mim?
Dispenso a previsão
Ah, se o que eu sou
É também o que eu escolhi ser
Aceito a condição
Vou levando assim
Que o acaso é amigo
Do meu coração
Quando fala comigo
Quando eu sei ouvir
Popularidade e impacto cultural
Apesar de nunca ter sido o single mais óbvio, “O Velho e o Moço” virou queridinha de fãs, presença constante em setlists e trilhas pessoais. Seus versos — “se o que eu sou é também o que eu escolhi ser”, “dispenso a previsão” — circulam como mantras de autonomia em redes, crônicas e cerimônias.
Legado
A faixa cristaliza a poética do conflito manso que fez de Ventura um clássico: pensar a vida sem slogans, aceitando que contradição também é verdade. Ao encenar velho e moço no mesmo corpo, a música oferece um retrato adulto do amadurecer: negociar com o próprio impulso sem amputá-lo.
Conclusão
Em “O Velho e o Moço”, Los Hermanos transformam a pergunta “quem decide o que é bom pra mim?” em canção. O resultado não entrega lição pronta; entrega escuta: do tempo, do acaso, das próprias vozes. Entre cuidado e estrago, previsão e liberdade, a resposta que fica é postura: aceitar a condição — e seguir, sabendo ouvir.