interpol

Quando ter um som próprio vira uma prisão?

Existe um momento na carreira de algumas bandas em que o maior elogio que elas poderiam receber começa estranhamente a soar como uma crítica.

“Isso é muito Interpol.”

A frase pode significar duas coisas completamente diferentes.

Pode ser reconhecimento. Poucas bandas chegam ao ponto em que bastam alguns segundos para revelar sua identidade. Uma guitarra surge naquele registro agudo e econômico, o baixo começa a caminhar como alguém voltando sozinho para casa às três da manhã, Paul Banks abre a boca com aquela voz de funcionário de cartório que descobriu o existencialismo francês e pronto: ninguém precisa consultar o aplicativo para descobrir quem está tocando.

Mas “isso é muito Interpol” também pode significar outra coisa:

eles fizeram Interpol de novo.

E aí começa um dos dilemas mais interessantes da vida adulta de qualquer artista.

Quanto você precisa mudar para continuar sendo criativo sem destruir justamente aquilo que fez você especial?

O lançamento de This Mirror Weighs a Ton, oitavo álbum do Interpol, recoloca essa questão em cima da mesa. Na crítica publicada pela Pitchfork nesta sexta-feira, 28 de agosto, o disco aparece como um trabalho forte da fase madura da banda, produzido por Andrew Wyatt e com algumas possibilidades novas — sintetizadores, cordas, sopros, atmosferas diferentes — que, segundo a publicação, acabam funcionando mais como expansões do vocabulário existente do que como uma transformação completa.

Em outras palavras: o Interpol continua sendo absurdamente bom em parecer Interpol.

O problema é que ninguém sabe exatamente quando isso deveria começar a ser considerado defeito.

A originalidade tem uma pegadinha

Toda banda jovem sonha em encontrar um som próprio.

No começo da carreira, qualquer comparação incomoda.

“Parece Joy Division.”

“Parece Television.”

“Parece The Cure.”

O músico quer imediatamente explicar que não, veja bem, existem influências de pós-punk francês, literatura russa, música concreta da Checoslováquia e uma fita demo gravada por um sujeito de Sheffield em 1981 que só teve 47 cópias.

Depois de alguns discos, acontece o milagre.

As pessoas param de dizer que você parece outra banda.

Começam a dizer que outras bandas parecem você.

Parabéns.

Você venceu.

Só esqueceram de avisar que o prêmio vem acompanhado de uma tornozeleira eletrônica.

Porque agora qualquer tentativa de sair do território conquistado pode ser interpretada como traição.

Se o Interpol fizer um álbum exatamente dentro de sua tradição, alguém dirá que está repetindo a fórmula.

Se lançar amanhã um disco de hyperpop com participação de Charli XCX, provavelmente metade do público pedirá intervenção judicial.

Essa é a parte cruel de possuir uma identidade artística forte: quanto mais definida ela é, menor parece ser o espaço disponível para movimentação.

É como administrar um restaurante famoso por fazer uma única receita extraordinariamente bem.

Depois de vinte anos, alguém pergunta:

“Vocês não pensam em mudar o prato?”

Talvez.

Mas também existem 400 pessoas na fila justamente porque querem comer aquele prato.

AC/DC descobriu isso décadas atrás

Poucas bandas foram tão frequentemente acusadas de fazer “o mesmo disco” quanto o AC/DC.

E poucas acusações são simultaneamente tão compreensíveis e tão injustas.

O AC/DC não passou décadas reinventando sua linguagem porque sua linguagem já nasceu quase como um sistema fechado.

Riff.

Groove.

Guitarra.

Refrão.

Malícia.

Volume.

Angus Young correndo pelo palco vestido como se tivesse sido expulso da escola em 1974 e decidido nunca mais atualizar o guarda-roupa.

Você poderia reclamar que a Coca-Cola também não lançou uma versão sabor caldo de cana para demonstrar evolução artística.

Há diferenças enormes entre discos do AC/DC para quem realmente acompanha a banda, evidentemente. Mas seu projeto sempre dependeu menos da transformação estética e mais do refinamento de uma linguagem.

Isso importa porque existe uma tendência crítica de tratar mudança como sinônimo automático de evolução.

Nem sempre é.

Às vezes um artista muda porque descobriu alguma coisa.

Às vezes muda porque ficou entediado.

Às vezes muda porque ouviu o disco que estava no topo das paradas naquele mês.

E às vezes permanece no mesmo território porque ainda existe coisa para explorar ali.

Repetição e aprofundamento não são necessariamente a mesma coisa.

Essa distinção é fundamental.

Os Ramones passaram a carreira dentro de um apartamento minúsculo

Os Ramones representam talvez a versão mais radical desse problema.

Poucas bandas construíram uma gramática tão imediatamente identificável.

Contagem.

Guitarra.

Velocidade.

Melodia.

Dois minutos.

Próxima.

O vocabulário era reduzido deliberadamente.

Mas reduzir o vocabulário não significa necessariamente reduzir as possibilidades.

Haicai também possui limitações.

Blues possui estruturas recorrentes.

Soneto vem praticamente com manual de instruções.

Parte da criação artística sempre aconteceu dentro de restrições.

O problema aparece quando a restrição deixa de funcionar como moldura e começa a funcionar como muleta.

É uma diferença quase invisível.

Você pode ouvir dois discos muito parecidos e perceber que um artista está investigando profundamente sua linguagem enquanto outro simplesmente encontrou o botão “repetir”.

E é justamente aí que o debate sobre o Interpol fica interessante.

O fantasma de Turn on the Bright Lights

Existe ainda outra prisão particularmente cruel: ter feito muito cedo o disco que todo mundo decide transformar em unidade oficial de medida da sua carreira.

O Interpol lançou Turn on the Bright Lights em 2002.

Desde então, cada novo álbum entra numa espécie de tribunal onde o primeiro disco continua sentado na cadeira do juiz.

Não importa muito que mais de duas décadas tenham passado.

A pergunta permanece.

“É tão bom quanto Turn on the Bright Lights?”

É um método curioso de acompanhar artistas.

Seria como encontrar alguém aos 47 anos e reclamar:

“Você não está tão interessante quanto naquela festa em que te conheci aos 23.”

Talvez não.

Mas talvez o problema seja justamente esperar que alguém permaneça congelado naquele instante.

Bandas veteranas precisam administrar duas forças contraditórias.

O público quer novidade.

E quer reconhecer imediatamente a banda que ama.

Quer transformação sem perda.

Risco sem possibilidade de desastre.

Surpresa dentro de parâmetros previamente aprovados.

Basicamente, queremos pedir ao cozinheiro “qualquer coisa diferente”, desde que tenha exatamente o mesmo gosto de sempre.

Existe uma diferença entre identidade e fórmula

Talvez seja possível separar as duas coisas de maneira relativamente simples.

Identidade é quando você reconhece o artista mesmo quando ele está fazendo algo diferente.

Fórmula é quando você consegue prever o que ele fará antes mesmo de ouvir.

David Bowie podia mudar completamente de contexto e continuar sendo Bowie.

Radiohead atravessou guitarras, eletrônica, abstração e arranjos orquestrais sem perder sua personalidade.

Nick Cave modificou profundamente a arquitetura de sua música ao longo das décadas enquanto preservava algo imediatamente reconhecível em sua presença.

A grande evolução artística talvez não seja abandonar aquilo que você era.

É descobrir quais elementos realmente fazem você ser você.

Porque nem tudo precisa sobreviver.

Talvez a essência do Interpol não seja determinado pedal de guitarra, determinada bateria seca ou determinada temperatura emocional próxima de uma terça-feira chuvosa em novembro.

Talvez seja a maneira como a banda constrói tensão.

O espaço entre os instrumentos.

A sensação urbana.

A elegância ligeiramente desconfortável.

A impressão de que alguma coisa terrível aconteceu naquela relação, mas Paul Banks prefere fornecer detalhes apenas mediante ordem judicial.

Se isso é a identidade, existe muito território disponível.

Jim James oferece o contraponto perfeito

Curiosamente, no mesmo dia em que a Pitchfork publicou sua crítica do novo Interpol, também avaliou Wowed Out, primeiro álbum solo de Jim James em oito anos.

O diagnóstico é praticamente complementar.

A publicação descreve o líder do My Morning Jacket como mais leve e menos sobrecarregado, considerando o álbum seu melhor trabalho em aproximadamente uma década. O disco reaproveita inclusive material que remonta ao início dos anos 2010, mas chega agora transformado por outra perspectiva artística.

É uma coincidência editorial bonita.

De um lado, uma banda veterana reafirmando sua linguagem enquanto ensaia movimentos para fora dela.

Do outro, um veterano encontrando renovação justamente ao parecer menos preocupado em carregar o peso da própria história.

Não existe vencedor nessa comparação.

Existem duas maneiras de envelhecer artisticamente.

Uma delas pergunta:

“Como posso continuar sendo eu?”

A outra pergunta:

“O que acontece se eu parar de tentar provar quem eu sou?”

Talvez todo artista longevo precise responder às duas.

Mudar apenas para provar que você mudou também é uma prisão

Existe uma ironia nessa discussão.

A obrigação de se reinventar pode ser tão limitadora quanto a obrigação de permanecer igual.

Quando cada álbum precisa obrigatoriamente apresentar uma “nova era”, uma “nova estética”, uma “nova persona”, uma “nova fase”, a mudança deixa de ser espontânea.

Ela própria vira fórmula.

É o paradoxo da reinvenção profissionalizada.

Até David Bowie, transformado posteriormente em santo padroeiro da mutação artística, passou períodos aprofundando linguagens em vez de demolir tudo a cada lançamento.

Nem todo disco precisa equivaler a mudar de país, religião e corte de cabelo.

Às vezes criatividade significa mover uma parede dentro da mesma casa.

A questão é saber se ainda existe alguém olhando pela janela.

Então quando o som próprio vira prisão?

Talvez não seja quando a banda começa a se repetir.

Isso acontece com praticamente todo mundo.

O som próprio vira prisão quando as decisões começam a ser tomadas para proteger a identidade em vez de produzir música interessante.

Quando determinado timbre aparece porque “é isso que nosso público espera”.

Quando a música evita determinada direção porque “não pareceria nossa banda”.

Quando aquilo que nasceu espontaneamente precisa ser reproduzido como procedimento.

Nesse momento, assinatura vira logotipo.

E artista começa lentamente a administrar franquia de si mesmo.

O Interpol ainda é interessante justamente porque permanece perto dessa fronteira.

This Mirror Weighs a Ton não precisa destruir o passado para justificar sua existência. A questão levantada pelas primeiras críticas é mais provocadora: alguns dos momentos mais interessantes parecem acontecer precisamente quando a banda abre pequenas portas dentro de sua própria arquitetura sonora.

Talvez seja esse o caminho possível para artistas que possuem uma identidade tão forte.

Não demolir a casa.

Descobrir cômodos que ninguém havia aberto.

Porque passar 25 anos tentando recriar a juventude é triste.

Mas passar 25 anos fugindo de tudo que você faz bem apenas para parecer “evoluído” não é muito mais inteligente.

No fim, longevidade artística talvez dependa menos de escolher entre repetição e reinvenção.

Depende de conseguir distinguir essência de hábito.

É uma diferença pequena no discurso.

E gigantesca quando a guitarra começa a tocar.