Logo no início, a música se ancora num gesto simples, quase automático: “de tarde quero descansar / chegar até a praia”. Não é lazer — é fuga. A praia não aparece como paraíso, mas como refúgio emocional. Quando o eu lírico diz “sei que faço isso pra esquecer”, ele admite que o contato com o mar não resolve nada; apenas anestesia. É um esquecimento temporário, físico, como quem tenta cansar o corpo para aliviar a mente.
A imagem “eu deixo a onda me acertar” é central. Não há resistência, não há luta contra a água. Ele se coloca no impacto, aceita o choque. O mar não é metáfora de paz, mas de confronto. Já o verso “o vento vai levando tudo embora” traz uma esperança ambígua: o vento leva a dor, mas também leva o que restou. Esquecer, aqui, tem um custo.
Quando surge “a linha do horizonte me distrai”, a música fala de distância. O horizonte é aquilo que nunca se alcança. Ele distrai porque aponta para longe, porque impede o olhar de voltar para dentro — onde está a ferida. Em seguida, o golpe:
“dos nossos planos é que tenho mais saudade”.
Não é da pessoa em si, mas do futuro imaginado. O luto maior não é do amor vivido, é do que não chegou a acontecer.
A pergunta “aonde está você agora além de aqui dentro de mim?” concentra toda a contradição da canção. A pessoa não está mais presente, mas também não foi embora. Ela virou memória ativa, voz interna, companhia involuntária. O “além” indica que a ausência é externa, mas a presença emocional permanece intacta.
Quando a letra afirma “agimos certo sem querer / foi só o tempo que errou”, surge uma tentativa de aliviar a culpa. Ninguém é vilão. Não houve erro consciente, apenas desencontro. O tempo vira entidade injusta, quase um terceiro personagem que estraga o que estava funcionando. É uma forma de sobreviver sem precisar apontar culpados.
O trecho “vai ser difícil eu sem você / porque você está comigo o tempo todo” revela o paradoxo mais doloroso do pós-término: a ausência prática não elimina a convivência emocional. A pessoa continua presente nos gestos, nas decisões, no silêncio. Estar junto passa a ser interno — e por isso ainda mais difícil de romper.
Quando o eu lírico observa o mar e conclui que “a vida continua e se entregar é uma bobagem”, não há euforia nem superação completa. É quase um mantra repetido para si mesmo. Ele não diz “estou bem”, mas “preciso continuar”. A frase “se entregar é uma bobagem” soa mais como autodefesa do que como convicção.
O momento mais maduro da canção aparece em “o que posso fazer é cuidar de mim”. Não há promessa de esquecer, nem de substituir. Há apenas autocuidado. E isso é pouco — mas é real. O verso seguinte, “quero ser feliz ao menos”, deixa claro que a felicidade aqui não é plena, é possível. É o mínimo necessário para seguir vivendo.
Por fim, o detalhe aparentemente banal — “olha só o que eu achei / cavalos-marinhos” — carrega um peso enorme. Não é sobre o animal em si, mas sobre o gesto de compartilhar algo pequeno com alguém que não está mais ali. É o reflexo automático do amor: querer mostrar, dividir, comentar. A vida segue produzindo pequenos achados, mas falta quem os receba.
“Vento no Litoral” não fala de superação triunfante. Ela fala de seguir machucado, de aceitar que algumas presenças não vão embora completamente e que viver, às vezes, é só aprender a caminhar com a ausência ao lado — enquanto o vento leva o que consegue.
Letra de Vento no Litoral
De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda está forte, vai
Ser bom subir nas pedras, sei
Que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
Agora está tão longe, ver
A linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora além de aqui dentro de mim?
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil eu sem você
Porque você está comigo o tempo todo
E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua e se entregar é uma bobagem
Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah
Olha só o que eu achei
Hum, hum
Cavalos-marinhos
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora

