“Será” não começa pedindo licença. Começa afastando mãos. E isso não é detalhe: é manifesto.
“Tire suas mãos de mim / Eu não pertenço a você”
Logo nos dois primeiros versos, a música estabelece seu eixo central: autonomia. Não é apenas o fim de um relacionamento sufocante; é a recusa de qualquer tipo de posse — emocional, ideológica ou simbólica. Em 1985, num Brasil recém-saído da ditadura, essa frase soava como algo maior do que um drama amoroso. Era um grito íntimo que também era coletivo.
O verso seguinte aprofunda esse conflito:
“Não é me dominando assim / Que você vai me entender”
Aqui, Renato Russo desmonta uma lógica muito comum: a ideia de que controlar é conhecer, de que vigiar é amar, de que impor é cuidar. A letra deixa claro que dominação não gera compreensão, só distância. Esse verso funciona tanto numa relação afetiva quanto numa leitura política e social — algo típico da Legião, que sempre escreveu canções capazes de operar em múltiplos níveis ao mesmo tempo.
Mesmo quando afirma independência, o eu lírico não se coloca como alguém plenamente resolvido:
“Eu posso estar sozinho / Mas eu sei muito bem aonde estou”
Há solidão, sim — mas não há alienação. Ele pode estar só, mas está consciente, situado, desperto. Isso é importante: a música não romantiza a dependência nem demoniza o isolamento. Ela propõe algo mais difícil: responsabilidade por si mesmo.
Essa segurança, no entanto, não elimina a dúvida. Pelo contrário: ela abre espaço para o questionamento existencial que estrutura toda a canção:
“Será só imaginação? / Será que nada vai acontecer?”
O refrão de “Será” é feito só de perguntas. Nenhuma resposta. Nenhuma promessa. Isso não é fraqueza composicional — é escolha estética. Renato transforma a incerteza em tema central. Não saber o que vem depois não paralisa; incomoda. E esse incômodo é o motor da música.
Quando ele pergunta:
“Será que é tudo isso em vão? / Será que vamos conseguir vencer?”
a vitória não é definida. Vencer o quê? Um sistema? Um relacionamento? A si mesmo? A força da letra está justamente em não especificar, permitindo que cada ouvinte projete ali sua própria batalha.
A canção então escurece um pouco mais o cenário:
“Nos perderemos entre monstros / Da nossa própria criação”
Esse é um dos versos mais potentes da música. Os monstros não vêm de fora. Não são inimigos externos, não são forças abstratas. Eles são criações nossas. Medos, expectativas, egos, culpas, projeções. Renato aponta que grande parte do caos que enfrentamos nasce dentro das próprias relações — e dentro de nós mesmos.
Essa ideia se prolonga nos versos seguintes:
“Serão noites inteiras / Talvez com medo da escuridão”
A escuridão aqui não é só literal. É a ausência de certezas, a falta de garantias, o vazio que surge quando estruturas antigas caem e as novas ainda não foram construídas. A música reconhece o medo — mas não foge dele.
O tom não é heroico. É humano.
“Ficaremos acordados / Imaginando alguma solução”
Não há plano, não há resposta pronta. Só vigília. Pensar junto. Tentar. Errar. O verbo “imaginar” é crucial: ainda não existe solução concreta, apenas a tentativa de concebê-la. Isso dialoga diretamente com o espírito de uma geração que precisava reinventar formas de existir, amar e se organizar depois de anos de repressão.
Essa tentativa esbarra num obstáculo central:
“Pra que esse nosso egoísmo / Não destrua o nosso coração”
Aqui, “Será” abandona qualquer ilusão de pureza moral. O problema não é só o outro, nem só o sistema. O problema é nosso egoísmo. Renato não se exclui da crítica. Ele reconhece que mesmo as relações mais bem-intencionadas podem ruir se cada um insistir em defender apenas o próprio território emocional.
O trecho final é quase um colapso ético:
“Brigar pra quê, se é sem querer? / Quem é que vai nos proteger?”
Essas perguntas revelam um esgotamento. A briga já não tem propósito claro. O conflito virou ruído. E a pergunta sobre proteção expõe uma verdade incômoda: não há mais uma instância superior que garanta segurança. Nem o Estado, nem a família, nem o amor romântico.
E então vem o golpe final:
“Será que vamos ter de responder / Pelos erros a mais, eu e você?”
Aqui, a música assume maturidade plena. Não é mais sobre liberdade adolescente nem rebeldia automática. É sobre responsabilidade. Sobre entender que escolhas têm consequências — afetivas, sociais, históricas. Não há mais como terceirizar a culpa.
Musicalmente, “Será” reforça tudo isso com uma estrutura contida, quase contenciosa. Não explode. Não se resolve. A canção termina como começou: em dúvida. E talvez seja por isso que ela envelheceu tão bem.
“Será” não oferece conforto. Ela oferece consciência. Não promete que tudo vai dar certo, mas insiste que vale a pena perguntar, resistir, tentar não destruir o que ainda pulsa.
É uma canção sobre dizer “não” —
e, ao mesmo tempo, sobre não saber exatamente o que dizer depois disso.
E talvez essa seja sua maior honestidade.
Letra de Será
Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
Acho que isso não é amor
Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?
Oh-oh-oh-oh-oh-oh
Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação
Serão noites inteiras
Talvez com medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Pra que esse nosso egoísmo
Não destrua o nosso coração
Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?
Oh-oh-oh-oh-oh-oh
Brigar pra quê, se é sem querer?
Quem é que vai nos proteger?
Será que vamos ter de responder
Pelos erros a mais, eu e você?

