Quando o Arctic Monkeys lançou seu álbum de estreia há 20 anos, ninguém poderia prever que aquela mistura de punk, garage rock e lirismo mordaz transformaria quatro rapazes de Sheffield em uma das bandas mais influentes do século XXI. O que começou como um furacão sonoro com Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not tornou-se uma trajetória marcada por evolução, reinvenção e um longo diálogo com o futuro do rock.
Agora, em 2026, o grupo prova mais uma vez que ainda tem muito a dizer — e não apenas como artistas, mas como agentes ativos na cena musical contemporânea. Depois de quatro anos sem lançar novas músicas, os Monkeys retornaram com “Opening Night”, uma faixa lançada em prol da War Child, organização que ajuda crianças afetadas por conflitos armados ao redor do mundo. E isso, por si só, já seria significativo — mas o contexto é ainda mais relevante.
Um retorno inesperado e intencionalmente discreto
Ao contrário de um retorno bombástico com campanha de marketing e entrevistas milionárias, o Arctic Monkeys escolheu uma abordagem silenciosa, elegante e focada no propósito. Sem grandes anúncios prévios, a banda deixou que a música falasse por si só. E os fãs perceberam — houve um frenesi quase instantâneo nas redes sociais e nos comentários do YouTube no momento em que “Opening Night” foi disponibilizada.
Bandeiras de todos os cantos do mundo surgiram nos comentários. Pessoas relatavam palpitações e empolgação, como se estivessem participando de algo maior do que um simples lançamento musical. O retorno dos Monkeys não era apenas um novo single — era um reencontro coletivo com a essência do rock que ainda pulsa entre diferentes gerações.
War Child: um novo capítulo para a música engajada
O lançamento de “Opening Night” faz parte da coletânea Help (2), o novo álbum beneficente da War Child. A escolha da banda em participar não foi apenas simbólica — ela insere os Arctic Monkeys no centro de um projeto histórico que reúne nomes lendários e contemporâneos em prol de um bem maior.
A War Child já havia lançado álbuns icônicos no passado (o primeiro Help, de 1995, contou com nomes como Radiohead, Blur e uma formação de estrelas britânicas). Help (2) segue essa tradição com uma escala impressionante: além dos Monkeys, participam Beth Gibbons, Pulp, Depeche Mode, Fontaines D.C., Damon Albarn e Graham Coxon, Wet Leg, Johnny Marr, Big Thief, e outras vozes poderosas da música atual.
A coletânea não para por aí: ela inclui versões inéditas e curiosas, como Arooj Aftab e Beck reinterpretando “Lilac Wine” de Jeff Buckley e Fontaines D.C. cobrindo “Black Boys On Mopeds” de Sinéad O’Connor — uma seleção que demonstra o potencial da música alternativa em unir história, sensibilidade e impacto social.
A própria música: sutileza que constrói esperança
Embora muito do burburinho esteja na associação com um álbum beneficente de grande alcance, “Opening Night” não se perde no barulho — ela encontra sua força na leveza e na construção cuidadosa de sua atmosfera sonora. A faixa tem aquela qualidade introspectiva e crescente que lembra clássicos como “Come Together”: começa contida, mas vai se aproximando de um crescendo emocional que parece dizer ao ouvinte:
“Calma… essa é apenas a primeira noite. Ainda há muito por vir.”
Essa mensagem — de esperança, continuidade e união — pode se referir tanto ao álbum beneficente quanto à própria evolução do Arctic Monkeys como banda: uma entidade artística que continua relevante sem depender unicamente de nostalgia ou reproduções de hits antigos.
O significado maior para a música hoje
Em um momento em que o rock muitas vezes é considerado “um gênero do passado”, o retorno do Arctic Monkeys com “Opening Night” — engajado, atual, socialmente consciente — serve como um lembrete de que a música pode ser ao mesmo tempo prazerosa, reflexiva e significativa.
Mais do que isso: colocar sua influência por trás de uma causa global mostra que bandas com legado não precisam se repetir para permanecerem essenciais. Elas podem reinventar sua música, conectar gerações diferentes e ainda usar sua voz por algo que vá além de cifras de streaming ou premiações.
Seja preparando terreno para a coletânea Help (2), seja reacendendo conversas sobre o papel social dos artistas, o Arctic Monkeys prova que — mesmo 20 anos depois de sua estreia eletrizante — ainda sabe como moldar o futuro do rock sem perder a ternura nem a lucidez.
Help (2) tracklist:
- Arctic Monkeys – ‘Opening Night’
- Damon Albarn, Grian Chatten & Kae Tempest – ‘Flags’
- Black Country, New Road – ‘Strangers’
- The Last Dinner Party – ‘Let’s do it again!’
- Beth Gibbons – ‘Sunday Morning’
- Arooj Aftab & Beck – ‘Lilac Wine’
- King Krule – ‘The 343 Loop’
- Depeche Mode – ‘Universal Soldier’
- Ezra Collective & Greentea Peng – ‘Helicopters’
- Arlo Parks – ‘Nothing I Could Hide’
- English Teacher & Graham Coxon – ‘Parasite’
- Beabadoobee – ‘Say Yes’
- Big Thief – ‘Relive, Redie’
- Fontaines D.C. – ‘Black Boys on Mopeds’
- Cameron Winter – ‘Warning’
- Young Fathers – ‘Don’t Fight the Young’
- Pulp – ‘Begging for Change’
- Sampha – ‘Naboo’
- Wet Leg – ‘Obvious’
- Foals – ‘When the War is Finally Done’
- Bat For Lashes – ‘Carried my girl’
- Anna Calvi, Ellie Rowsell, Nilüfer Yanya & Dove Ellis – ‘Sunday Light’
- Olivia Rodrigo – ‘The Book of Love’

