
Tem música que demora a nascer. E tem música que demora 60 anos. É o caso de “Casting Me Away From You”, que Neil Young escreveu ainda adolescente, lá por 1964 ou 1965, e que só agora, seis décadas depois, ganhou uma gravação oficial de estúdio digna do nome dele.
A canção esquecida na gaveta
Na época em que compôs a faixa, Young nem sonhava com o que viria pela frente: tocava na banda de garagem The Squires, em Winnipeg, no Canadá, ainda longe do Buffalo Springfield, do Crazy Horse e de uma carreira solo que o transformaria em um dos nomes mais reverenciados do rock. O próprio Young não tem certeza absoluta do ano exato em que escreveu a música — o que só reforça o tanto de tempo que ela ficou esquecida.
Uma versão amadora da faixa, gravada com o amigo de infância Comrie Smith, chegou a aparecer décadas depois no box set Neil Young Archives Vol. I (1963–1972), lançado em 2009. Aquela gravação tinha um quê ingênuo, quase nos moldes dos Everly Brothers — um registro histórico, mas longe de ser a versão definitiva.
De The Squires para The Chrome Hearts
Agora, aos 80 anos, Young resolveu dar à canção o tratamento que ela nunca teve. A nova gravação nasceu no estúdio Shangri-La, de Rick Rubin, em Malibu, com a mais recente formação de banda do músico: The Chrome Hearts. O resultado é uma versão descrita como “solitária e de inspiração country” — bem distante da simplicidade adolescente do original, mas fiel ao espírito melancólico da composição.
O que esperar do álbum Second Song
“Casting Me Away From You” é uma prévia do álbum Second Song, que Young lança com o The Chrome Hearts em 18 de setembro de 2026. O nome do disco não é acidental: outra faixa do repertório também é resgate de uma composição antiga, sinal de que o veterano está numa fase de revisitar o próprio arquivo com olhos novos — e banda nova.
Para além do áudio, o clipe da música também mergulha no passado: usa imagens de arquivo do fotógrafo David Meyers, gravadas nos anos 1970 no rancho Broken Arrow, de Young, com aparições da atriz Carrie Snodgress e até de um cachorro chamado Timer.
Por que essa história importa
Neil Young é dos poucos artistas vivos capazes de transformar um exercício de arquivo pessoal em notícia relevante — e o motivo é simples: ele nunca tratou o próprio passado como peça de museu, e sim como matéria-prima viva. “Casting Me Away From You” prova que uma boa canção não tem prazo de validade; só precisava da banda certa, seis décadas depois, para finalmente ser ouvida como merecia.

