Damien Rice se apresentando ao vivo com violão

Álbum O de Damien Rice: a história do disco feito em casa

Se você acha que o álbum O de Damien Rice nasceu de um estúdio chique, com produtor famoso e sofá de couro, sinto informar: ele nasceu de um irlandês teimoso, equipamento emprestado e cordas de verdade. A história do disco que fez meio mundo chorar no ônibus com fone de ouvido é bem mais improvisada (e mais interessante) do que o mito de “gênio solitário” que ficou colado nele.

Do rock frustrado ao quarto em Dublin

Antes de ser o cara do violão e do sussurro, Damien Rice era guitarrista e vocalista do Juniper, uma banda de rock que chegou a assinar contrato. Segundo a Rolling Stone, ele se sentia preso ao som da banda, brigou com a gravadora por causa da direção artística e acabou saindo. Depois, foi se esconder na Itália para ver se largava a música de vez. Não largou: percebeu que tinha levado a inquietação na mala.

De volta à Irlanda, montou o próprio selo, praticamente num canto do quarto, e decidiu que ia gravar do jeito dele. Fim do capítulo “rockstar frustrado”, começo do capítulo “cantor sensível que todo mundo conhece”.

Um disco gravado em casa, com ajuda de parente

O disco foi gravado em 2001 e lançado em 1º de fevereiro de 2002 na Irlanda e no Reino Unido, com produção do próprio Rice. O orçamento era quase simbólico: ele relatou ter recebido um empréstimo de US$ 500 do pai, que seria perdoado quando o álbum ficasse pronto. O equipamento de gravação caseiro veio com a ajuda do primo de segundo grau, o compositor David Arnold.

E aqui entra a minha primeira opinião impopular: o mito do artista que “fez tudo sozinho contra o sistema” é bonito, mas conveniente. Ter um parente bem posicionado na indústria abre porta que a maioria das bandas de garagem nunca vai ver. Isso não tira o mérito do disco, só tira a pose.

Cordas, ópera e canto gregoriano num disco “caseiro”

Pelo som, ninguém diria que foi feito em casa. O álbum mistura cordas, cantores de ópera e até canto gregoriano, e conta com a voz de Lisa Hannigan, que divide os vocais e virou parte essencial da identidade do disco. Ele também é dedicado a Mic Christopher, músico que morreu pouco antes do lançamento.

O clipe oficial de “The Blower’s Daughter”, acima, é o melhor cartão de visitas do disco. A faixa saiu como single ainda em 2001, antes do álbum, e ajudou a abrir caminho.

Sem gravadora grande: coragem ou bom marketing?

Rice lançou o disco sem uma major, acreditando que um contrato desses comprometeria o trabalho futuro. Só em 2003 a Vector Records, selo novo focado em artistas independentes, distribuiu o álbum no mundo todo. Corajoso? Sim. Mas o discurso “indie puro” também vendeu muito bem. Rejeitar a indústria virou, ironicamente, a melhor estratégia de posicionamento da época.

O tamanho do fenômeno

O resultado desmente quem acha que “disco caseiro” é sinônimo de nicho. O álbum chegou ao 8º lugar no Reino Unido e ficou 115 semanas na parada, alcançou o 2º posto na Irlanda, entrou na Billboard 200 dos Estados Unidos (114ª posição) e depois recebeu certificação de ouro por lá. A crítica também gostou: a nota agregada no Metacritic é 80 de 100.

Superestimado? A opinião que vai dar briga

Vou dizer o que muito fã não quer ouvir: o disco é lindo, mas não é perfeito. “Eskimo” tem quase 16 minutos (15min57s, para ser exato) e é daquelas faixas que a gente respeita mais do que escuta. Em alguns momentos, a intensidade vira pose, e o álbum parece mais preocupado em doer do que em soar bem. Dá para amar O e admitir que nem tudo ali precisava durar tanto.

Por que falar de O agora

O disco faz 25 anos em 2027, o mesmo ano em que o cantor tem show marcado no Brasil. Confira todos os detalhes de ingressos e setores no nosso post sobre o show de Damien Rice em São Paulo em 2027. Se quiser se aprofundar na obra, leia também nossa análise de “Delicate”, a análise de “Older Chests” e o review do show no Cine Joia, em 2015.

E você: O é um clássico intocável ou o disco mais romantizado dos anos 2000? Conta aí nos comentários, mas vale argumentar.

Damien Rice se apresentando ao vivo com violão
Foto: Wikimedia Commons (licença livre; autoria conforme a página do arquivo)