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5 músicas do Kid Abelha para apresentar a um amigo que não conhece a banda

Meu amigo vai fotografar o Kid Abelha. O problema é que ele (ainda) não conhece o Kid Abelha.

Convidei meu amigo Marcos Tadeu, fotógrafo e crítico de cinema, para fazer a cobertura de um show do Kid Abelha. Parecia um plano perfeito: eu cuidaria das palavras, ele das imagens e, no final, teríamos um belo registro de uma das bandas mais importantes do pop rock nacional.

Até que Marcos confessou que não conhecia muito da banda.

Como assim?

O sujeito consegue discutir enquadramento, fotografia, montagem, roteiro e provavelmente identificar um filme iraniano pelo barulho de uma porta se fechando, mas não tem intimidade com o repertório do Kid Abelha?

Não chega a ser um crime. Mas, dependendo da comarca, caberia pelo menos uma advertência.

Evidentemente, não era necessário conhecer a discografia inteira para fotografar o show. Um bom fotógrafo sabe trabalhar com luz, movimento e composição independentemente de quem esteja no palco. Mas me incomodava imaginar que ele poderia registrar George Israel tocando saxofone sem compreender exatamente o tamanho daquele acontecimento para o pop brasileiro.

Resolvi corrigir essa lacuna cultural.

O Kid Abelha surgiu no começo dos anos 1980 e ajudou a construir a identidade de uma geração que aprendeu a falar de amor, sexo, ciúme, frustração e relacionamentos complicados ao som de guitarras acessíveis, refrões irresistíveis e um saxofone que frequentemente parecia participar das discussões do casal.

A banda teve diferentes formações, fases e sonoridades. Passou pela new wave, atravessou o pop romântico, amadureceu suas composições e sobreviveu a uma indústria musical que mudou de roupa mais vezes do que vocalista de banda de glam metal.

E fez tudo isso sem precisar fingir que o amor era uma experiência particularmente digna.

O amor nas músicas do Kid Abelha é confuso, egoísta, sensual, contraditório e, ocasionalmente, uma péssima ideia. Ou seja, bastante próximo da realidade.

Escolhi cinco músicas para apresentar ao Marcos. Não são necessariamente as cinco melhores, mas representam alguns dos motivos pelos quais considero o Kid Abelha uma banda fundamental para entender o pop rock brasileiro.

E, como ele é crítico de cinema, resolvi organizar essa pequena sessão como um festival de cinco filmes sobre as complicações de gostar de alguém.

1. Como Eu Quero (1984) — O aperto de mão, ou melhor, o primeiro ultimato

Álbum: Seu Espião | Composição: Leoni e Paula Toller

Vamos começar com uma das músicas mais famosas do Kid Abelha. E também uma das mais safadas.

Não necessariamente pela sensualidade explícita, mas pela maneira como transforma controle emocional em um refrão extremamente agradável.

“Como Eu Quero” é uma daquelas canções que atravessam gerações graças a uma combinação perigosa: melodia doce, letra afiada e uma interpretação que faz tudo parecer absolutamente razoável.

Mas não é.

A personagem cantada por Paula Toller está praticamente elaborando um manual de instruções para o namorado. Existe uma lista de comportamentos esperados, mudanças necessárias e condições para a continuidade do relacionamento.

É um amor que chega acompanhado de um contrato de adesão. E, aparentemente, não existe opção para discordar dos termos.

O mais curioso é que a música nunca soa agressiva. A voz de Paula mantém uma delicadeza que contrasta com a postura dominadora da personagem. É justamente aí que mora a graça: o Kid Abelha consegue fazer uma cobrança afetiva soar como um convite romântico.

Lançada no álbum de estreia Seu Espião, de 1984, a música ajudou a transformar o grupo em fenômeno nacional.

Para o Marcos, que conhece bem os mecanismos da narrativa cinematográfica, eu explicaria assim: imagine uma comédia romântica em que a protagonista parece adorável, mas o roteiro começa a revelar que talvez ela seja a verdadeira vilã.

E o público continua torcendo por ela.

Essa é a genialidade de “Como Eu Quero”. Para mergulhar nas entrelinhas, leia também nossa análise da letra de “Como Eu Quero”.

Por que escolhi? Porque é acessível, irresistível e demonstra que o Kid Abelha sabia esconder personagens emocionalmente complicados dentro de melodias aparentemente inocentes.

2. Grand’Hotel (1991) — O filme adulto que você não esperava encontrar

Álbum: Tudo É Permitido | Composição: George Israel, Paula Toller e Lui Farias

Aqui preciso fazer uma confissão: “Grand’Hotel” está nesta lista por dois motivos muito pessoais.

O primeiro é que considero essa uma das melhores letras da história do Kid Abelha.

O segundo é que uma banda mineira chamada Monno fez uma releitura maravilhosa dessa música, que me fez prestar ainda mais atenção à composição original.

É interessante quando isso acontece. Às vezes, conhecemos uma canção durante anos, sabemos cantar boa parte dela, mas precisamos ouvi-la pela voz de outra pessoa para perceber detalhes que estavam escondidos à vista de todos.

“Grand’Hotel” é exatamente o tipo de música que merece esse exercício. Também exploramos o desgaste amoroso e os arrependimentos em nossa análise da letra de “Grand’Hotel”.

Lançada em Tudo É Permitido, de 1991, a faixa pertence a uma fase em que o Kid Abelha já havia deixado para trás parte da ingenuidade juvenil dos primeiros discos.

Agora os relacionamentos eram observados de outro lugar. O desejo convivia com o desgaste, a intimidade não garantia felicidade e os personagens pareciam carregar uma bagagem emocional consideravelmente mais pesada.

O hotel funciona como cenário e metáfora. Um espaço de encontros, fantasias, anonimato e transitoriedade. Um lugar onde as pessoas podem se aproximar intensamente sem necessariamente construir alguma coisa duradoura.

Há algo profundamente cinematográfico nessa ideia.

Marcos certamente conseguiria imaginar os corredores, as portas fechadas, as conversas interrompidas e os personagens tentando descobrir se aquilo que estão vivendo significa alguma coisa.

O mais impressionante é como a canção constrói essa atmosfera sem precisar de um discurso grandioso. A força está na sugestão, nas imagens e nas ambiguidades.

É uma composição que confia na inteligência de quem escuta.

E a releitura do Monno reforça uma característica importante: quando uma canção continua funcionando depois de ganhar outra interpretação, é sinal de que existe alguma coisa realmente sólida por baixo da produção original.

Por que escolhi? Porque mostra um Kid Abelha mais maduro, sofisticado e capaz de escrever sobre relações humanas sem transformar tudo em uma declaração açucarada de amor.

3. Fixação (1984) — Quando a paixão precisa de acompanhamento psicológico

Álbum: Seu Espião | Composição: Beni, Leoni e Paula Toller

Existe uma diferença considerável entre gostar muito de alguém e desenvolver uma fixação por essa pessoa.

O problema é que o rock brasileiro dos anos 1980 nem sempre estava interessado em estabelecer limites emocionalmente saudáveis.

“Fixação” é uma das músicas mais interessantes do primeiro álbum do Kid Abelha justamente por trabalhar essa fronteira entre paixão, obsessão e idealização.

A estrutura musical carrega uma urgência que combina perfeitamente com o tema. Há uma inquietação constante, como se a própria canção tivesse dificuldade para permanecer em repouso.

A interpretação de Paula Toller também contribui para essa sensação. Não estamos diante de um amor tranquilo, desses que permitem dormir oito horas e manter uma alimentação equilibrada.

Estamos falando daquela paixão que sequestra a atenção, reorganiza prioridades e transforma uma pessoa relativamente funcional em alguém incapaz de pensar em outra coisa.

Hoje, provavelmente, essa pessoa teria três aplicativos de relacionamento instalados, passaria quatro horas analisando a última visualização do WhatsApp e consultaria amigos para interpretar um emoji.

Nos anos 1980, pelo menos rendia uma boa música. Para entender melhor essa obsessão, confira nossa análise da letra de “Fixação”.

Mas “Fixação” tem uma qualidade que vai além da letra. Ela mostra como o Kid Abelha absorveu a atmosfera da new wave e do pós-punk, transformando influências internacionais em uma linguagem pop brasileira.

A música é dançante, mas também inquieta. Melódica, porém ligeiramente sombria.

Se “Como Eu Quero” apresenta o lado mais acessível do grupo, “Fixação” mostra que havia mais nervosismo e experimentação por trás daqueles refrões radiofônicos.

Aliás, as duas faixas estão em Seu Espião, um álbum de estreia assustadoramente eficiente para uma banda que ainda estava encontrando sua identidade.

Por que escolhi? Porque desmonta a ideia de que o Kid Abelha era apenas uma banda de canções românticas leves. Às vezes, o romance também precisava de terapia.

4. Pintura Íntima (1983) — Presta atenção nesse saxofone, Marcos!

Primeiro compacto da banda, posteriormente incluída em Seu Espião | Composição: Leoni e Paula Toller

Marcos, agora eu preciso que você preste atenção em uma coisa.

O saxofone.

Pode parecer uma recomendação estranha para alguém que vai fotografar um show, mas George Israel merece um olhar especial. Seu instrumento não era apenas um enfeite sonoro colocado entre a guitarra e a bateria para deixar as músicas mais sofisticadas.

O sax ajudou a construir a identidade do Kid Abelha.

E “Pintura Íntima” é uma excelente demonstração disso.

Lançada originalmente em compacto em 1983, antes de aparecer no primeiro álbum da banda, a música apresenta uma combinação irresistível de sensualidade, energia juvenil e uma certa falta de vergonha que faria muito bem ao rock brasileiro contemporâneo.

A letra não está particularmente interessada em discutir as consequências emocionais de um relacionamento.

O assunto é outro.

E, convenhamos, o refrão está entre os mais descaradamente sugestivos de sua geração.

Enquanto outras bandas tentavam descobrir como salvar o mundo, o Kid Abelha parecia muito mais preocupado em descobrir o que fazer depois que os pais fossem dormir.

Uma pauta perfeitamente legítima para jovens músicos.

A gravação tem aquela energia típica do começo dos anos 1980, quando o rock nacional ainda estava descobrindo como poderia soar moderno, dançante e brasileiro ao mesmo tempo.

E o saxofone funciona como uma segunda voz. Ele entra, comenta, acrescenta malícia e dá personalidade ao arranjo.

Não é difícil imaginar por que a música ajudou a chamar atenção para uma banda que ainda carregava o nome Kid Abelha e os Abóboras Selvagens.

Aliás, existe algo admirável em conseguir construir uma carreira séria usando um nome que parece ter saído de uma reunião de estudantes depois de algumas cervejas.

Mas funcionou.

Por que escolhi? Porque “Pintura Íntima” apresenta o lado mais divertido, espontâneo e sensual do grupo. E porque, depois dessa música, Marcos não terá desculpa para ignorar George Israel no palco.

5. Te Amo Pra Sempre (1996) — O caminho sem volta, com direito à MTV

Álbum: Meu Mundo Gira em Torno de Você | Composição: George Israel e Paula Toller

Esta última escolha tem menos a ver com a importância histórica da música e mais com a minha própria relação com o Kid Abelha.

“Te Amo Pra Sempre” pertence à segunda metade dos anos 1990, justamente quando comecei a ouvir pop rock nacional com mais atenção.

Era uma época em que a MTV ainda existia como uma força cultural capaz de formar a opinião musical de toda uma geração.

Antes de algoritmos personalizados, playlists infinitas e recomendações calculadas a partir do nosso comportamento, existia um canal de televisão que praticamente decidia quais artistas entrariam na nossa rotina.

A gente conhecia bandas assistindo aos videoclipes, descobria músicas esperando a programação e, muitas vezes, desenvolvia uma relação afetiva com determinada canção porque ela aparecia na televisão durante uma fase importante da nossa vida.

“Te Amo Pra Sempre” faz parte desse universo.

Lançada em Meu Mundo Gira em Torno de Você, de 1996, a música marcou uma fase em que o Kid Abelha já havia se consolidado como um dos grandes nomes do pop brasileiro. Seu videoclipe chegou a ser indicado ao VMB de 1997, na categoria Escolha da Audiência.

A canção também representa uma mudança interessante na maneira como a banda tratava o amor.

Se nas primeiras gravações predominavam os conflitos, as inseguranças e os jogos emocionais da juventude, aqui encontramos uma abordagem mais madura.

O amor deixa de ser apenas uma explosão sentimental e passa a ser apresentado como algo que precisa ser reinventado continuamente para sobreviver.

É uma ideia muito mais inteligente do que simplesmente prometer eternidade.

Afinal, amar alguém para sempre pode parecer maravilhoso durante os três primeiros meses. O desafio começa quando chegam os boletos, a rotina, as divergências sobre a temperatura do ar-condicionado e a descoberta de que a outra pessoa mastiga fazendo barulho.

“Te Amo Pra Sempre” entende que a permanência exige movimento.

Musicalmente, a faixa traduz muito bem o Kid Abelha dos anos 1990: melodias diretas, produção acessível, interpretação delicada e uma capacidade impressionante de transformar ideias sobre relacionamentos em canções populares.

Também é uma música que me transporta imediatamente para uma época em que descobrir uma banda exigia um pequeno esforço.

Era preciso ligar a televisão, esperar o videoclipe, tentar descobrir o nome da música e, eventualmente, comprar um CD.

Hoje temos praticamente toda a história da música disponível no bolso.

E, paradoxalmente, às vezes parece mais difícil criar uma relação duradoura com aquilo que ouvimos.

Talvez por isso essa canção tenha um lugar tão especial na minha memória.

Por que escolhi? Porque apresenta o Kid Abelha que conheci com mais intensidade, conecta a banda à cultura musical dos anos 1990 e demonstra como suas composições conseguiram amadurecer sem perder a simplicidade.

E se Marcos não gostar do Kid Abelha?

Depois dessas cinco músicas, considero minha obrigação de amigo devidamente cumprida.

Marcos terá conhecido o lado manipulador de “Como Eu Quero”, a sofisticação de “Grand’Hotel”, a obsessão de “Fixação”, a sensualidade de “Pintura Íntima” e o romantismo maduro de “Te Amo Pra Sempre”.

Terá atravessado mais de uma década da trajetória de uma banda que ajudou a transformar o pop rock brasileiro em uma linguagem própria.

E, de quebra, entenderá por que Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato merecem um lugar de destaque na memória musical do país.

Isso não significa que ele seja obrigado a gostar.

Amizade também consiste em aceitar que pessoas inteligentes podem ter opiniões musicais absolutamente equivocadas.

Mas existe uma diferença enorme entre não gostar de uma banda e nunca ter dedicado tempo suficiente para conhecê-la.

O Kid Abelha é frequentemente tratado como uma coleção de sucessos românticos que tocaram no rádio durante décadas. É uma definição confortável, mas pequena demais para uma banda que soube combinar desejo, humor, insegurança, sofisticação pop e algumas observações bastante cruéis sobre as relações humanas.

Talvez Marcos descubra tudo isso.

Talvez termine a experiência preferindo continuar discutindo fotografia de cinema.

Não tem problema.

Pelo menos, quando George Israel levantar o saxofone durante o show, ele saberá que não está fotografando apenas um músico tocando um instrumento.

Está registrando um pedaço importante da história do pop rock brasileiro.

E, se nada disso funcionar, ainda posso tentar apresentar “Lágrimas e Chuva”, “Amanhã É 23”, “Educação Sentimental II”, “Nada Tanto Assim” e “Eu Tive um Sonho”.

O que não falta ao Kid Abelha é repertório.

Agora quero saber: se você tivesse apenas cinco músicas para apresentar o Kid Abelha a um amigo, quais escolheria?