Noel e Liam Gallagher, do Oasis, em show em 2005

Como o Oasis gravou Morning Glory: 15 dias e uma briga

Se você quer saber como o Oasis gravou Morning Glory, prepare-se para uma história que mistura método de fábrica, ego de estádio e um estúdio que quase virou ruína no meio do caminho. O disco que vendeu mais de 22 milhões de cópias no mundo foi gravado, segundo o produtor Owen Morris, em cerca de 15 dias, na base de mais ou menos uma música por dia. Sim: o álbum que embalou uma geração inteira foi feito no ritmo de quem tem ônibus para pegar.

Noel e Liam Gallagher, do Oasis, em show em 2005
Foto: Wikimedia Commons (licença livre; crédito do autor na página do arquivo)

Um disco feito com pressa e com um plano na cabeça do Noel

Em 1995, o Oasis vinha de Definitely Maybe, tinha o rótulo de “maior banda do Reino Unido em formação” e um problema inédito: a bateria. Tony McCarroll tinha saído, Alan White acabava de entrar, e o grupo precisava de disco novo antes que a onda esfriasse. “Some Might Say”, o primeiro single, já tinha sido gravada em fevereiro, no estúdio Loco, ainda com McCarroll nas baquetas. O resto veio em Rockfield, no País de Gales, a partir de maio.

Noel Gallagher chegou com músicas e arranjos prontos. Liam, que em teoria é o “perigo” da história, aprendia as melodias quase de primeira. Morris chegou a descrever aquelas sessões como das mais criativas e tranquilas da carreira dele. Guarde essa palavra, “tranquilas”, porque ela vai envelhecer muito mal no próximo tópico.

A noite em que Rockfield quase virou campo de batalha

Segundo a Far Out Magazine, a calma acabou quando Liam voltou do pub com gente a tiracolo enquanto Noel gravava guitarras. O relato fala de estúdio destruído, extintor disparado dentro da casa, uma guitarra de Noel quebrada e a mesa de som falhando depois da confusão. A briga entre os irmãos teria envolvido até um taco de críquete. Alan White, com duas semanas de banda, ouviu de Noel que aquilo ia acontecer de novo. Bem-vindo ao Oasis, rapaz.

O mais impressionante não é o quebra-quebra, que de tempos em tempos acontece em banda de rock. É o fato de o disco ter saído inteiro dali. Existe uma tese confortável de que genialidade precisa de caos. Eu acho o contrário: o Oasis fez um discaço apesar do caos, e só foi possível porque o Noel é um dos compositores mais disciplinados que o rock britânico já teve. Quem romantiza o desastre esquece de quem estava segurando a caneta.

Wonderwall foi a terceira música gravada (e ninguém tinha noção do que vinha)

Entre as faixas gravadas naquele período, “Wonderwall” foi a terceira a ficar pronta. Hoje ela é trilha de churrasco, de violão de acampamento e de gente que jura que odeia a música e canta o refrão inteiro. Na época, era só mais uma balada dentro de um disco que tinha pressa de existir. Para entender o tamanho do fenômeno, vale reler a história por trás de Wonderwall aqui no Música Viajante.

Olha como a faixa soa no clipe oficial, lançado quando o Oasis já sabia que tinha uma bomba nas mãos:

https://www.youtube.com/watch?v=bx1Bh8ZvH84

Champagne Supernova, Paul Weller e o exagero que virou assinatura

O fecho do álbum, “Champagne Supernova”, tem mais de sete minutos e a guitarra de Paul Weller. É a síntese do que o Oasis fazia melhor: soar maior que a própria banda. Se você quer destrinchar o enigma da letra, a análise de Champagne Supernova está no site. E, para entender a mesma vizinhança de caos criativo, vale ver como nasceu “Don’t Look Back in Anger”.

O resultado: recorde, exagero e um som esmagador

O álbum chegou às lojas em 2 de outubro de 1995 e vendeu 345 mil cópias na primeira semana no Reino Unido, um recorde na época. Parte desse impacto vem da produção: guitarras empilhadas, volume no talo, tudo comprimido até o limite. É um som que impressiona no rádio, e que também cansa. Muita gente aponta o disco como um dos símbolos da chamada “guerra do volume”, e não é difícil entender por quê.

Minha opinião, e já aviso que vai incomodar: Morning Glory é um disco mais bem produzido do que bem escrito. O Definitely Maybe tem fome; o Morning Glory tem tamanho. São virtudes diferentes, e a história preferiu coroar a segunda. O melhor disco do Oasis é aquele que a banda gravou sem saber que seria gigante.

E agora, quem tem razão?

Então a pergunta que fica: Morning Glory é o melhor disco do Oasis ou só o mais barulhento? Defenda o seu lado nos comentários, mas sem taco de críquete.