O Kid Abelha ficou sugestivos 13 anos sem tocar em Belo Horizonte até um retorno delicioso de acompanhar nas noites de 23 e 24 de outubro, véspera das eleições presidenciais. Acompanhei a primeira noite e fora um duelo lindo no intervalo do show, não existiu espaço para discussões políticas: a noite era de baile, festa e viajar no tempo.
No meu caso, fui parar em 1999, quando ouvia pela rádio 98fm uma edição do Pop Rock Brasil. Fiquei o final de semana em casa, com uma caixa de fita k7, curtindo cada momento. Talvez o lance com a música tenha se tornado mais que uma coisa normal de adolescente naquele final de semana. Dentre as atrações, estava o Kid Abelha.

Demorei quase 30 anos para finalmente riscar Paula Toller, Bruno Fortunato e George Israel da minha coleção de shows. Agora tenho a figurinha para completar o álbum das principais bandas brasileiras dos anos 1980 — queria colar o Ultraje a Rigor também, mas sabe como é…
Olhei ao redor e tinha muita, muita mulher. O problema disso era que elas estavam acompanhadas de babacas enchendo o cu de cerveja e falando alto o show inteiro. Qual é a das pessoas que tentam falar mais alto que o som do palco? As mulheres dançando e cantando, e seus respectivos formando um grupo para conversar. Se não fosse o Rivotril, teria mandado calarem a boca porque realmente estavam atrapalhando a apresentação.
E ainda sobre o público, a quantidade de lgbtqiapn+ presente me fez pensar em algo óbvio. Nunca tinha me tocado no quanto o Kid Abelha combina com essa galera. Num cenário em que a diversão, sugestões e provocações não eram do interesse das outras bandas da época, a obra da banda era um prato cheio para atrair diretamente quem só queria diversão.
O show foi uma sessão de clássicos do começo ao fim. Destaque principalmente para o baixista Pedro Dias. Ainda que o legado da banda tenha o instrumento em alta importância, foi uma surpresa sentir cada nota do seu baixo lilás. Som alto. Daqueles que você sente no chão e escuta no peito. O canhoto ainda prestou uma homenagem dupla ao eterno Prince: além da cor do baixo (não tocou “Purple Rain”, mas quase fez chover), estava com um visual que também fazia referência ao cantor. E como não acredito que nenhum baixista consiga ser tão bom sozinho, precisamos citar o monstro das baquetas Adal Fonseca. A cozinha funciona bem demais — inclusive com aquela parada de entender o outro no olhar.
A cada nova música, Toller fazia uma introdução ou algum breve comentário. Observei atentamente seus movimentos e expressões. Ela é uma diva do rock. É como se a gente assistisse ao Roger Federer jogando tênis, sabe? A classe, técnica e controle estão presentes, e você sabe que está diante uma das lendas do pop rock brasileiro. Israel é outro negócio diferente para se pensar. Não é apenas um saxofonista que pega o violão de vez em quando. Não sei a resposta, mas se perguntarem para ele onde se sente mais feliz na vida, arrisco dizer que seria o palco. Ele é a alma do Kid Abelha. E o Fortunato tem um comportamento mais sério no palco, sempre na dele, fazendo o que sabe e deixando os outros aparecerem mais.
Em dias tão tensos na semana da eleição, o Kid Abelha trouxe para BH uma máquina do tempo para anos em que os problemas eram bem mais simples. Essa leveza criou uma noite deliciosa, de festa e certeza que a música é o remédio para nos fazer sentir bem.

