A música é um ritual de celebração, comunidade e amor. Quando se trata de reencontrar um dos principais nomes da nossa MPB, em uma turnê especial comemorando 50 anos de carreira, o sentimento é a certeza da sorte de viver o agora. O privilégio de ainda ter a oportunidade de assistir ao vivo um artista como o Djavan é muito especial, principalmente quando olhamos ao redor e não encontramos nomes atuais capazes de gerar otimismo para o futuro.
Com casa lotada na Arena MRV, o alagoano iniciou os serviços às 21h13. Não acredito em mensagens subliminares, principalmente quando falamos de um país tão polarizado politicamente (e com o cantor tendo mais a perder do que ganhar com manifestações mais explícitas), logo é melhor pensar que foi uma homenagem ao Atlético — afinal, 13 também é Galo.
Pouco tempo antes do show começar, o telão virou um “cinema invertido” e exibiu os créditos da equipe de produção do evento. Depois o telão abandonou as cores branco, preto e cinza para “criar vida” com cores vivas. Para manter a atenção de um público dependente de telas, o telão foi um show a parte durante toda a apresentação. Dividindo espaço com Djavan e sua banda, o telão exibia belas artes para complementar a experiência. Longe de ser necessário, afinal, era o Djavan no palco, mas um complemento positivo.
Pouco depois da abertura, com “Sina”, o sempre elegante Djavan colocou suas luvas para se proteger do frio. Não que precisasse: a sequência com a sugestiva “Eu Te Devoro” exalou calor do público para afastar o tempo gelado de Belo Horizonte nessa época do ano.
Assim como na turnê anterior, que passou em BH em 2023 e você confere aqui, o show especial de 50 anos incluiu um momento acústico com “Meu Bem Querer”, “Oceano”, dentre outras. Ainda não foi desta vez que fui presenteado com “Oceano” com a banda toda. A linha de baixo da música é a minha favorita de toda a lista de canções do cantor — e isso não é pouca coisa para quem já gravou com os melhores baixistas da história: de Arthur Maia a Marcus Miller. Ficou para a próxima. De novo.
A ausência do baixo foi compensada por uma interação curiosa. Sempre costumo observar os fãs ao meu redor porque amor é contagioso e inspirador. Quando a gente está num show, consegue identificar fácil quem está lá por amor ou para parecer descolado nas redes sociais. Para cada maluco tirando uma selfie sorridente com o palco em toda música, existiam pessoas lavando a alma. Um trio chamou a minha atenção. Elas exclamavam palavrões em alto e bom som a cada introdução. Achei aquilo engraçado. Não parecia o primeiro rodeio delas, mas talvez fosse a primeira vez juntas num show dele? Sei lá. Em “Oceano”, depois dos versos “Vem me fazer feliz por que”, as três berraram “EU TE AMO”. Na segunda vez, acho que até o próprio Djavan ficou desconcertado.

Ao fim do set acústico, a noite virou uma festa de soul e jazz com “Seduzir”, “Samurai” e “Lilás”. A última teve um flashmob com o público ligando as luzes do celular e criando um efeito tão lindo na Arena MRV que me lembrou os balões em “Ob-La-Di, Ob-La-Da” e os cartazes com “Na” em “Hey Jude”, na turnê do Paul McCartney em 2023.
Ainda na etapa final do show, depois de quase duas horas, Djavan tirou o seu casaco. As três fãs mais apaixonadas de BH atacaram novamente: “Coloca a brusaaaa, Djavan! Tá frio! Não vá pegar um resfriado! Cuida da garganta!” O público mineiro, certamente, é o mais carinhoso e preocupado do país. Somos mães apaixonadas cuidando dos nossos filhos famosos.
A linda, linda “Um Amor Puro” foi a escolhida para o bis — que teve ainda uma repetição de “Sina”, com a pista virando uma festa coletiva, com muita dança e emoção. Celebrar nossos ídolos é necessário, e um nome como o Djavan é um verdadeiro presente dos deuses da música.

