Ao longo de suas carreiras visionárias, Lou Reed e David Bowie raramente pouparam palavras quando o assunto era música – especialmente quando encontravam algo que realmente os tocava. E, em uma de suas poucas unanimidades, ambos os ícones da contracultura apontaram a mesma canção como “uma obra-prima”: ‘96 Tears’, da banda ? and the Mysterians.
Pode parecer uma escolha curiosa à primeira vista. Afinal, estamos falando de uma faixa garageira lançada em 1966, marcada por um órgão Farfisa distorcido, um vocal quase teatral e uma produção lo-fi que pouco se assemelha à grandiosidade de Transformer ou Ziggy Stardust. Mas é exatamente aí que reside seu charme: no seu espírito cru, bruto e provocador, antecipando a essência do punk, do glam e até do synthpop anos antes de seus tempos.
Uma influência antes da hora
David Bowie relembrou seu primeiro contato com a música nos anos 1970, durante uma de suas aparições na BBC Radio, onde listou suas 50 músicas favoritas:
“‘96 Tears’ é uma peça extraordinária de música. Fiquei incrivelmente impressionado quando ouvi pela primeira vez.”
Ele ainda alfinetou:
“Ninguém tem isso na coleção de discos… boa e velha BBC.”
Para Bowie, sempre fascinado pela intersecção entre pop e subversão, a canção reunia tudo: melodia cativante, estrutura incomum, um vocalista fora do padrão e uma aura de mistério. O cantor Rudy Martinez (ou apenas “?”), exalava vulnerabilidade ao cantar “I’ll just cry” com um misto de autocomiseração e provocação – algo raro no rock da época.
Lou Reed, por sua vez, enxergava em ‘96 Tears’ uma conexão direta com o que ele buscava com a Velvet Underground: romper as convenções e desafiar expectativas.
Ecos de Dylan, Warhol e contracultura
Ambos, Bowie e Reed, compartilhavam admiração por Bob Dylan e William Burroughs, mas foi a atitude desafiadora de ‘96 Tears’ que os uniu em torno da canção. Ela trazia uma estética quase “anti-rockstar”, colocando o sentimentalismo em primeiro plano, mas de maneira esquisita e cativante – algo que ecoaria nas composições posteriores de Bowie, como “Rock ‘n’ Roll Suicide”, e na teatralidade emocional de Lou Reed.
Uma pérola esquecida?
Apesar de ter chegado ao topo das paradas nos EUA em 1966, ‘96 Tears’ muitas vezes é esquecida entre os grandes marcos da música pop. Mas, como provam Bowie e Reed, nem sempre o valor de uma canção está em sua fama, mas no impacto silencioso que ela provoca.
Meio século depois, ainda é possível sentir sua influência em bandas indie, produções eletrônicas lo-fi e vocalistas que fogem da virilidade clássica do rock. Ela sobrevive porque foi feita para parecer errada – e acabou certa demais.
Como dizia Bowie:
“O amanhã pertence àqueles que conseguem ouvi-lo chegando.”
E tanto ele quanto Lou Reed ouviram. Em alto e bom som.
https://www.youtube.com/watch?v=AeFpblpDWV8

