Como Glen Hansard ajudou a lançar Jeff Buckley: a noite em que uma estrela nasceu no palco do Sin-é

A história de Jeff Buckley costuma ser contada a partir de Grace (1994), único álbum lançado em vida e hoje considerado um dos discos mais importantes dos anos 1990. Mas antes dos elogios da crítica, das turnês internacionais e de se tornar uma referência para artistas como Thom Yorke, Matt Bellamy e Chris Cornell, Buckley era apenas mais um músico tentando encontrar espaço em Nova York.

E, curiosamente, um dos personagens fundamentais nessa história foi Glen Hansard, músico irlandês conhecido por liderar o The Frames e estrelar o filme Once. Segundo relato publicado pela Far Out Magazine, foi Hansard quem abriu a porta para que Buckley fizesse sua primeira apresentação no lendário café Sin-é, palco que mudaria completamente sua trajetória.

O encontro durante a turnê de The Commitments

Jeff Buckley chegou a Nova York em fevereiro de 1990 disposto a tentar a sorte como músico profissional. Depois de alguns meses sem conseguir se estabelecer, voltou para Los Angeles e acabou aceitando um trabalho bem distante dos holofotes: atuar como técnico de guitarra durante a turnê promocional de The Commitments, filme musical lançado em 1991.

Entre os integrantes da excursão estava Glen Hansard, que interpretava o guitarrista Outspan Foster no longa.

Os dois rapidamente descobriram uma paixão em comum: Bob Dylan.

Durante as viagens, passavam horas tocando violão nos hotéis, trocando referências musicais e desenvolvendo uma amizade que Hansard definiria anos depois como “a melhor coisa” que aconteceu para ele por causa de The Commitments.

Mal sabiam que aqueles encontros improvisados mudariam também a história da música.

O convite que mudou tudo

Quando a turnê passou por Nova York, um amigo de Hansard entrou em contato.

Shane Doyle era dono de um pequeno café chamado Sin-é, localizado na St. Mark’s Place, no East Village, e queria que os músicos de The Commitments fizessem uma apresentação por lá.

Como isso não seria possível, Hansard propôs outra ideia:

— Eu posso tocar… e meu amigo Jeff também.

Doyle aceitou imediatamente e ofereceu aos dois o horário da meia-noite.

Parecia apenas mais uma apresentação despretensiosa em um café pequeno.

Na prática, foi o nascimento público de Jeff Buckley.

“Ele arrancou o telhado do lugar”

Hansard abriu o show tocando algumas músicas. Em determinado momento, começou uma versão de “Sweet Thing”, clássico de Van Morrison, e chamou Buckley para cantar.

O resultado surpreendeu até quem já conhecia o talento do amigo.

Anos depois, Hansard resumiria aquela noite de maneira direta:

“Ele arrancou o maldito telhado daquele lugar.”

O público, que inicialmente havia ido assistir “o cara de The Commitments“, saiu falando de outra pessoa.

Como o próprio Hansard brincou em entrevista à BBC:

“No começo era ‘o cara de The Commitments e o amigo dele’. No final da noite era ‘Jeff Buckley… e o cara de The Commitments’.”

Sin-é virou a casa de Jeff Buckley

Depois daquela apresentação, Buckley começou a tocar regularmente em bares e cafés de Lower Manhattan.

Mas havia um lugar especial.

O Sin-é rapidamente virou sua residência artística.

Logo ele conquistou uma apresentação fixa nas noites de segunda-feira, e o público crescia semana após semana.

O pequeno café passou a ficar lotado.

Em pouco tempo, havia pessoas ouvindo da calçada porque já não cabia mais ninguém lá dentro.

Entre os curiosos apareciam também produtores e executivos da indústria fonográfica.

Foi ali que Steve Berkowitz, da Columbia Records, viu Buckley pela primeira vez antes de contratá-lo oficialmente em outubro de 1992.

Sem aquela primeira noite organizada por Hansard, talvez essa história tivesse sido bem diferente.

De cafés pequenos para o mundo

Após assinar contrato com a Columbia, Jeff Buckley lançou Grace em 1994.

Hoje o disco é considerado um clássico absoluto, mas na época seu sucesso foi construído lentamente, muito graças às apresentações ao vivo.

Hansard acompanhou esse momento de perto.

Em agosto daquele mesmo ano, tornou-se atração de abertura da turnê de Buckley.

Uma das lembranças mais marcantes aconteceu em Whelan’s, tradicional pub de Dublin.

Segundo Hansard, Buckley parecia estudar o público tentando descobrir como conquistá-lo.

Até que simplesmente pegou um copo de Guinness e virou inteiro de uma vez.

A plateia explodiu em aplausos.

Logo depois ele começou a cantar.

E, nas palavras de Hansard:

“O público ficou completamente sob seu feitiço.”

Nunca esqueceu suas origens

Mesmo com o crescimento da carreira, Jeff Buckley nunca abandonou o lugar onde tudo havia começado.

Entre uma turnê e outra, ele voltava ao Sin-é para fazer apresentações solo.

Era uma forma de manter contato com aquele ambiente intimista onde aprendera a construir sua relação com o público.

Esses shows acabaram registrados parcialmente no EP Live at Sin-é, lançado em 1993, documento essencial para entender a evolução artística do cantor antes de Grace.

Um privilégio para quem estava lá

Jeff Buckley morreu tragicamente em 1997, aos 30 anos, interrompendo uma carreira que parecia destinada a alcançar patamares ainda maiores.

Para Glen Hansard, porém, permanece a gratidão de ter testemunhado tudo desde o início.

Ao lembrar da amizade entre os dois, ele resumiu o sentimento de forma emocionante:

“Quando olho para trás, sou grato por ter sido uma mosca na parede durante um momento tão importante da vida de um jovem.”

É uma frase que ajuda a entender por que tantas histórias sobre Jeff Buckley continuam fascinando fãs décadas depois.

Antes dos palcos gigantes, das turnês internacionais e da idolatria quase mítica que cerca seu nome, existiu apenas um pequeno café em Nova York, um amigo disposto a dividir o palco e uma voz tão impressionante que fez todos esquecerem quem era a atração principal da noite.

Às vezes, a história da música muda sem grandes anúncios.

Basta um violão, um convite de última hora e alguém capaz de fazer um lugar inteiro acreditar que acabou de assistir ao nascimento de uma lenda.