Se você já foi a um karaokê, em um barzinho de esquina ou até em um casamento com banda ao vivo, você ouviu “Creep“. É inevitável. A música se tornou uma espécie de entidade própria, um hino para quem se sente deslocado, mas que, para o Radiohead, foi por décadas um fardo pesado demais para carregar.
Imagine criar obras-primas complexas como OK Computer e Kid A, e ainda assim ser perseguido por uma canção que você escreveu quando era basicamente um adolescente angustiado. O desgosto de Thom Yorke por “Creep” é lendário — a ponto de ele já ter chamado a música de “lixo”. Mas, curiosamente, foi uma banda de covers na Tailândia que ajudou a banda a fazer as pazes com o próprio passado.
O “meme” mais bem-sucedido dos anos 90
Vamos ser sinceros: para muita gente, “Creep” virou um meme. Aquelas marteladas de guitarra antes do refrão são icônicas, mas a música em si é quase uma paródia da angústia grunge dos anos 90. É o tipo de canção que parece simples demais para uma banda que se tornou tão progressiva e experimental.
O medo genuíno de Yorke e companhia era que essa música “burra” (palavras dos críticos, não minhas… bom, talvez minhas também) ofuscasse uma das carreiras mais brilhantes da história do rock. Ver artistas milionários reclamando de seus hits costuma ser irritante, mas no caso do Radiohead, a gente entende: é como se um físico nuclear fosse lembrado apenas por ter vencido um concurso de “soletrar” na terceira série.
O encontro inesperado em Bangkok
A virada de chave aconteceu durante uma turnê, em uma daquelas noites aleatórias que só quem vive na estrada experimenta. Em entrevista ao jornalista Neil Strauss, Thom Yorke contou que a banda entrou em um bar em Bangkok, na Tailândia, apenas para relaxar.
Assim que se sentaram, a banda de cover local começou a tocar… adivinha? Sim, “Creep”.
Em vez de saírem correndo ou pedirem para parar, o Radiohead inteiro se levantou. Eles ficaram ali, na frente dos músicos tailandeses, aplaudindo e olhando nos olhos de quem estava no palco. O detalhe mais delicioso? A banda de cover não tinha a menor ideia de quem eles eram. Para aqueles músicos tailandeses, eram apenas turistas estrangeiros animados. Para o Radiohead, foi uma epifania.
“Agora a música pertence a eles”
Nesse momento, Yorke percebeu que “Creep” tinha se desprendido deles. A música não era mais um peso nas costas do Radiohead; ela tinha se tornado propriedade pública, um padrão do pop mundial que existia independentemente de quem a criou.
“É ótimo poder se afastar disso também. Tipo, agora isso é propriedade de alguma banda de cover tailandesa, entende?”, comentou Yorke na entrevista.
Essa experiência “humilhante”, no melhor sentido da palavra, foi libertadora. Ver uma banda tocar sua música sem saber quem você é prova que sua obra ganhou vida própria. O Radiohead percebeu que poderia continuar sendo a banda mais cabeçuda e experimental do planeta, porque “Creep” já estava em boas mãos (ou nas mãos de qualquer um que tivesse um violão e uma crise de identidade).
Viajando com o Radiohead (Sem a Depressão)
Para quem curte turismo musical, essa história é um lembrete de que os melhores momentos acontecem longe dos grandes estádios. Bangkok é famosa por sua vida noturna vibrante e bandas de cover tecnicamente impecáveis que tocam de tudo, de Bon Jovi a, claro, Radiohead.
Se até o Thom Yorke conseguiu sorrir ao ouvir “Creep” em um bar úmido na Ásia, talvez esteja na hora de você parar de pular essa faixa no Spotify e aceitar: às vezes, ser um “weirdo” é a melhor coisa que pode acontecer com a sua carreira.
E você, já teve algum “momento Radiohead” em um bar de viagem? Aquela música que você não aguenta mais, mas que em outro contexto soou como um abraço? Conta pra gente nos comentários se você ainda aguenta ouvir “Creep” ou se já deu o que tinha que dar!

