Não é apenas o vinho que quanto mais velho, melhor fica. Com impressionantes 40 anos de estrada, o Biquíni fez um daqueles shows em que tudo é uma imensa celebração. Do carinho e amor incondicional dos fãs até a dedicação no palco para conquistar a atenção de cada pessoa presente. Foi exatamente assim a noite de 21 de março, no Befly Hall, em Belo Horizonte.
Com casa cheia, o Biquíni iniciou seus trabalhos por volta das 21h30 com “Zé Ninguém”. Uma das principais faixas da banda carioca, presente no disco Descivilização, de 1991, é o cartão de visitas perfeito para chegar com os dois pés na porta. Ou na orelha. Não economizaram no volume — o que é sempre bem-vindo, exceto quando a acústica não favorece tanto.
Em determinado momento, o vocalista Bruno Gouvea (que segue com uma das melhores vozes do nosso rock brasileiro) perguntou quem estava conferindo o Biquini pela primeira vez. Muitas mãos para o ar, principalmente de crianças acompanhando os pais. Essa coisa de geração é muito doida de ver. Bandas da época dourada do rock nacional conseguiram atingir três gerações diferentes: nossos pais e agora nossos filhos. E essa troca de experiências geracionais fica evidente quando você olha para o lado.
Certos artistas conseguem se tornar imortais exatamente por isso. Não se preocupam com inovação. Querem apenas trazer o passado de volta para nossas vidas porque é um sentimento maravilhoso ser teletransportado para uma outra época, outro estado de espírito. Mesmo com material novo, o Biquini entende que o sucesso garantido está na memória afetiva dos fãs. Para não entrar no “tédio” (sem trocadilhos), cabe ser criativo e brincar com os arranjos. Tudo certo.

Existe um clima de celebração constante num show do Biquini. Seja quando tocam seus grandes sucessos “No Mundo da Lua”, “Dani” ou a regravação de “Chove Chuva”(Jorge Ben Jor) ou quando ressuscitam sucessos como “Carla” (LS Jack), “Carta aos Missionários” (Uns e Outros) ou “Camila, Camila” (Nenhum de Nós). Ouvir “Carla” foi uma surpresa inesperada, mas faz parte de uma homenagem da banda ao dias Mulheres. E é mais uma canção com nome próprio feminino para o repertório.
Como é comum atualmente, o Biquini veio acompanhado de um telão de suporte que foi particularmente interessante em “Janaína”, com cenas de mulheres no seu dia a dia. Aliás, um dos meus momentos favoritos foi justamente nessa música, com um solo de saxofone arrepiante.
Em “Impossível” tivemos uma grande homenagem dos fãs: a turma do gargarejo subiu um bandeirão com os dizeres “é impossível esquecer vocês” e a foto da banda. Deu para ver o quanto pegaram a banda de surpresa, mas não ficou por aí. Em “Vento Ventania” todo mundo levantou uma folha A4 escrito “Lele”. Foi bonito ver o Befly inteiro erguendo as folhas. E isso é só mais uma prova do quanto o Biquini faz realmente parte da vida e história de tanta gente.
Não apenas sobreviveram ao tempo e mudanças sociais e comportamentais, mas se tornaram um tipo de parente distante daquele que todo mundo morre de amores e sempre dá um jeito de reencontrar. Quando a arte é de verdade, o fã sabe identificar. Como falei aqui, quase dez anos atrás, piloto automático não é algo que faz parte da realidade do Biquini e no seu relacionamento com os fãs.
Showzão da porra.

