Review Rogério Skylab @ A Autêntica, Belo Horizonte — 24/04/2026

Rogério Skylab bateu ponto em Belo Horizonte para as celebrações de 20 anos do lançamento de Skylab IV, álbum recheado de pérolas da sua discografia, como “O Meu Pau Fica Duro”, “Puta”, “Música Para Paralítico” e “Lava as Mãos”. Foi a minha primeira vez presenciando o caos que toma conta do palco — e das pessoas — durante esses shows e acho que voltei para casa me sentindo com a certeza que vivi dentro de uma dimensão paralela tão exótica que me senti normal.

A noite na Autêntica começou 23h13 com “IML”. Ficou claro o sentimento de devoção dos fãs. Não era apenas por cantarem os versos, entenderem as piadas internas, abrirem rodas ou erguerem as mãos pro céu louvando a palavra de Skylab. Um show do Skylab é como se fosse um culto, das pessoas fantasiadas para os jovens roqueiros de camisa preta, todo mundo em sintonia rezando pelo mesmo Deus.

Não iniciados podem se chocar. Um casal com seus mais de 50 anos me chamou a atenção. Enquanto o cara bebia um copo atrás do outro como se quisesse desesperadamente voltar para 2003, a mulher fechou a cara, incrédula e até um pouco ofendida com a ideia de que passar a sexta-feira ouvindo uma maioria esmagadora de homens elogiando mulheres em “Puta” depois de repetirem os versos de “O Meu Pau Fica Duro”. Diversão não era bem o sentimento do casal naquele momento — o que está longe de não ter sido absolutamente hilário acompanhar as expressões chocadas da mulher e seu ódio para o companheiro. Eles não ficaram até o fim do show… e não duvido dela ter terminado a relação acusando o cara de ser red pill.

A Natalia levantou uma hipótese: em um mundo maluco como o que vivemos, não seria difícil imaginar a presença de red pills de verdade em um show do Skylab. A sobrevivência da carreira de Skylab se deve ao culto dos fãs, que reconhecem a sua genialidade em criar piadas musicais bizarras, e não foram engolidos pela energia do politicamente correto. E talvez por isso mesmo, pessoas “erradas” podem entender a mensagem de uma forma mais literal. O choque desses dois mundos não existiu. Na igreja de Skylab, a missa acontece sem ruídos.

A arte de Skylab está nas suas letras, claro, mas existe uma questão musical muito importante e isso fica escancarado no show. O instrumental é simples, por vezes repetitivo, e esse é o segredo para funcionar como cama perfeita para a poesia. Por isso mesmo, quando existe espaço para a banda chamar a responsa, é sempre um momento tão WOW! O volume sobe, guitarrista e baixista duelam em frases, riffs e solos que flertam com uma ideia de virtuosismo, mas são apenas muito bem executados e pensados. Se tem uma coisa que não esperava, era sair da Autêntica com os ouvidos zunindo depois de ver o Skylab ao vivo.

Encerrada a apresentação do disco, Skylab ainda teve tempo de colocar em cena algumas canções de outras fases. A obrigatória “Tem Cigarro Aí?” (nesse momento acontece uma chuva de cigarros na direção do artista) e “Matador de Passarinho” marcaram presença, deixando o final para “Você vai Continuar Fazendo Música?”. Assim como Iggy Pop, Skylab convida o público para subir ao palco e cuidar de cantar todos os versos. O resultado foi um caos organizado com os fãs cantando, pulando e curtindo o fim de uma noite para mostrar que artistas fora da caixinha são muito importantes. Showzão.

Valeu, Autêntica pela cobertura!