Axl Rose, vocalista do Guns N' Roses, cantando no palco em Londres

Guns N’ Roses na Argentina: o dia em que Axl usou tradutor

Em dezembro de 1992, o Guns N’ Roses na Argentina conseguiu a proeza de ser denunciado por um presidente, sermoneado por um cardeal e ainda assim lotar o estádio do River Plate duas noites seguidas. No meio da confusão, Axl Rose fez algo que só ele faria: chamou uma tradutora ao palco para dar bronca na plateia em espanhol. Quase 34 anos depois, a cena continua rendendo, e a gente explica por quê.

Axl Rose, vocalista do Guns N' Roses, cantando no palco em Londres
Foto: Wikimedia Commons (arquivo de licença livre; autor e licença na página do arquivo). Axl Rose em show em Londres, 2022.

O clima antes do show: a Argentina queria Axl longe

A banda chegou a Buenos Aires em 5 e 6 de dezembro de 1992, no fim da turnê Use Your Illusion, e vinha com a reputação de furacão. Na mesma perna sul-americana, houve 178 detidos em Santiago, no Chile, depois de um show que começou atrasado, e cerca de 20 policiais feridos em Bogotá, na Colômbia. Não era exatamente um currículo de hóspede discreto.

Circulavam boatos de que Axl teria queimado uma bandeira argentina num show em Paris. Os relatos da época tratam a história como falsa, mas ela já tinha feito o estrago: grupos nacionalistas ameaçaram a banda, o então presidente Carlos Menem chamou os músicos de “forajidos” e o cardeal Antonio Quarracino disse que o grupo precisava de tratamento psicológico. Proibir os shows, aliás, o governo nem tentou, porque seria um prato cheio para acusações de autoritarismo. Moralismo, mas com calculadora na mão.

Axl e a tradutora: o que aconteceu no palco do River Plate

O show atrasou quase duas horas, o que deixou o público impaciente, e começaram a voar objetos em direção ao palco. Segundo a Louder, Axl interrompeu a apresentação duas vezes. Na primeira, avisou que arremessar coisas não ia melhorar o show e que a banda iria embora se aquilo continuasse. Na segunda, foi além e disse que, se alguém visse outra pessoa jogando objetos, que partisse para cima dela. Como boa parte do público não falava inglês, uma tradutora ficou responsável por transmitir cada palavra, tom incluso.

E aqui vale a calibragem: a fama diz que foi um “quase tumulto”, mas os relatos não apontam feridos nem presos nos shows de Buenos Aires. Os dois concertos foram até o fim. Ou seja, o episódio é mais sobre o estilo Axl de gerenciar plateia do que sobre uma tragédia. Gerenciar, aliás, é uma palavra generosa.

Pedir para a plateia se resolver na porrada é boa ideia? Não

Opinião nossa, sem anestesia: a bronca em si tinha lógica, ninguém merece levar objeto na cabeça, mas terceirizar a segurança para a própria plateia foi uma péssima decisão de comando. Estádio lotado, tensão alta e um vocalista incentivando briga é receita de desastre. A tradutora, no fim, foi a parte mais profissional da noite: traduziu o que o artista disse, sem filtro e sem pedir desculpa por ele.

Enquanto isso, o hino que construiu essa fama seguia intacto. Dá para dizer que o Guns daquela época era uma banda de hits imortais e de gestão de crise inexistente, e que as duas coisas se alimentavam.

Para lembrar por que a plateia argentina estava disposta a enfrentar presidente e cardeal, fica a performance do clipe oficial de um dos maiores sucessos da banda.

https://www.youtube.com/watch?v=1w7OgIMMRc4

O que veio depois: volta em 1993 e fim de uma era

O saldo das polêmicas foi curioso: ninguém conseguiu barrar a banda e o público compareceu em massa. Sete meses depois, em 16 e 17 de junho de 1993, o Guns voltou a Buenos Aires, já na fase Skin N’ Bones. Foram as últimas apresentações dali com a formação que gravou os álbuns Use Your Illusion, com Axl, Slash, Duff McKagan, Matt Sorum, Dizzy Reed e Gilby Clarke. O estádio do River Plate ainda receberia a banda de novo em 2016.

Se você quer entender de onde veio essa banda antes de virar tema de sermão presidencial, vale revisitar o impacto de Appetite for Destruction e acompanhar a turnê de Slash no Brasil em 2027.

Veredito: lenda ou má educação?

A gente acha que a história envelheceu como queijo e vinho ao mesmo tempo: parte genial pelo caos, parte constrangedora pela irresponsabilidade. Mas o mais divertido é que, mais de três décadas depois, quem lembra do episódio não lembra do setlist, e sim do cantor mandando um intérprete fazer o trabalho sujo. E aí, leitor: Axl estava certo em dar bronca ou passou do ponto ao mandar a plateia resolver na base do braço? Conta nos comentários.