Se você já ouviu um tiozão gritar “Teenage Wasteland” numa formatura, num churrasco ou na abertura de série policial, parabéns: você presenciou um dos maiores mal-entendidos da história do rock. O significado de Baba O’Riley, do The Who, não tem nada a ver com juventude livre e festa. É uma música nascida de um projeto que deu errado, de um guru que não falava e de um órgão eletrônico de sala de estar.

O que significa Baba O’Riley (spoiler: não é “Teenage Wasteland”)
Primeiro, o básico que o karaokê não ensina: a música se chama “Baba O’Riley”. “Teenage Wasteland” é só o trecho que todo mundo canta errado de cor. O título junta o nome do guru indiano Meher Baba, seguido por Pete Townshend desde 1967, com o do compositor minimalista Terry Riley, cujos loops e acordes em repetição inspiraram a base da faixa. É um título de nerd espiritual, e a história por trás confirma isso.
Meher Baba tinha feito voto de silêncio em 1925 e o manteve até morrer, em 1969. Um guru calado inspirando uma ópera-rock sobre um garoto surdo, cego e mudo: coerente, e nada pop.
Lifehouse: o projeto que ninguém entendeu (nem a banda)
Depois do sucesso de Tommy, em 1969, Townshend ficou com a pior das encomendas: fazer algo maior. Veio o Lifehouse, um filme e álbum duplo ambientados num futuro distópico em que as pessoas vivem controladas e o rock é proibido, até que um grande festival libertaria todo mundo pelo poder coletivo da música. Ele bebia no sufismo de Inayat Khan, que via a música como o caminho mais curto até Deus.
Foi essa a sinopse que Townshend tentou explicar à banda, segundo a uDiscover Music. Os colegas não conseguiam acompanhar o enredo, e o compositor teve um colapso nervoso no meio do caminho. O álbum duplo encolheu para um disco simples: Who’s Next, de agosto de 1971, que chegou ao topo da parada britânica. Opinião impopular, mas defensável: o fracasso do Lifehouse foi a melhor coisa que aconteceu ao The Who, porque obrigou Townshend a entregar canções em vez de teses.
Como nasceu o riff: um órgão doméstico e muita paciência
O pulso hipnótico que abre a música saiu de um órgão Lowrey Berkshire Deluxe, equipamento mais associado a sala de estar americana do que a estádio, no qual Townshend usou a função de repetição de marimba para montar a demo em casa. Em maio de 1971, no Olympic Studios, em Barnes, o produtor Glyn Johns passou essa demo para a fita de 16 canais, e a banda gravou por cima dela.
A versão original passava dos 25 minutos, e o disco trouxe uma edição de cerca de cinco. Sim, o hino que você conhece é o “resumo da novela”.
O violino irlandês que nasceu de uma ideia de Keith Moon
O final acelerado, com aquele violino correndo atrás da banda, existe por acaso. Dave Arbus, do East of Eden, gravava no estúdio ao lado e foi chamado a colaborar, e a ideia teria partido de Keith Moon. Glyn Johns contou que Arbus precisou “andar” no andamento para acompanhar a velocidade. Townshend achou o resultado meio irlandês, e daí vem o “O’Riley” do título.
“Teenage Wasteland”: quem está mesmo no terreno baldio?
A expressão descreve a paisagem desolada e poluída que os personagens atravessam, e Townshend se inspirou no lixo deixado por multidões em festivais, como a Ilha de Wight, e no caos que associava a Woodstock. Não é elogio à juventude. É uma crítica a ela e ao mundo que ela herdou. A música abriria o Lifehouse numa trama sobre um casal procurando a filha que seguia rumo ao festival; Roger Daltrey chegou a defendê-la como alerta sobre o domínio da tecnologia na sociedade.
Resultado: a faixa que fala de desolação virou trilha de formatura, tema de abertura da série CSI: NY e fecho de show olímpico em Londres, em 2012. Nunca saiu como single nos Estados Unidos nem no Reino Unido e, ainda assim, é o que o mundo mais associa ao The Who. O mercado, como sempre, ficou com a versão que cabe na playlist de academia.
Por que Baba O’Riley continua sendo uma obra-prima (e Tommy está superestimado)
Aqui vai a provocação da casa: Tommy é historicamente importante, mas Who’s Next é o disco que envelheceu melhor, e “Baba O’Riley” é o motivo. Ela une sintetizador, riff de guitarra e uma bateria que parece querer derrubar o prédio, em um ano em que o rock inventava tudo ao mesmo tempo.
Se você curte histórias de estúdio nesse estilo, vale ler também como Jimmy Page se encantou por Robert Plant, como Dave Grohl gravou a estreia do Foo Fighters quase sozinho e o review do show do AC/DC no MorumBIS.
E aí: “Baba O’Riley” é a melhor abertura de disco do rock ou só a música mais mal-entendida do século? Defenda seu lado nos comentários.
Nota de copyright: este texto traz apenas análise e paráfrase. A letra de “Baba O’Riley” é protegida pela Lei 9.610/98 e não é reproduzida aqui.

