system of a down em são paulo
Serj Tankian of System of a Down performing live on stage on day 1 of Download Festival at Donington Park, UK. Picture date: Friday 09 June, 2017. Photo credit: Katja Ogrin/ EMPICS Entertainment.

10 verdades que ninguém quer ouvir sobre System of a Down

O System of a Down é uma das poucas bandas capazes de fazer você pular como um adolescente, refletir sobre imperialismo e, trinta segundos depois, ouvir Serj Tankian cantar alguma coisa com a energia de um vendedor de feira possuído pelo espírito de Frank Zappa.

É metal, punk, música armênia, hardcore, teatro do absurdo, protesto político e desenho animado com crise existencial.

E talvez por isso o System tenha conquistado uma posição curiosa dentro do rock: é uma banda extremamente popular que continua sendo tratada como se fosse alternativa.

Tem música com centenas de milhões de reproduções, refrão que até quem não gosta de metal conhece e uma legião de fãs espalhada pelo planeta. Mesmo assim, existe aquela sensação de que gostar de System of a Down ainda significa pertencer a algum clube secreto de pessoas que entenderam que o mundo está pegando fogo.

Só que toda banda que vira instituição merece algumas pedradas no próprio monumento.

Portanto, aqui estão 10 verdades que ninguém quer ouvir sobre System of a Down.


1. Você provavelmente começou a gostar de System of a Down sem entender absolutamente nada do que eles estavam dizendo

Pode admitir.

Você ouviu “Chop Suey!” pela primeira vez e pensou algo parecido com:

WAKE UP! ALGUMA COISA MAKEUP! ALGUMA COISA TABLE!

E foi suficiente.

System of a Down é uma das maiores provas da história de que fonética também vende disco.

Metade do público brasileiro poderia ter jurado, durante anos, que Serj Tankian estava revelando algum segredo sobre a existência humana quando, na verdade, ninguém tinha a menor ideia do que estava sendo cantado.

Mas o negócio funcionava.

Era como assistir a um filme estrangeiro sem legenda: você não entendia exatamente o diálogo, mas sabia que alguma coisa muito importante estava acontecendo.

Depois você foi procurar a tradução.

E descobriu que estava pulando alegremente ao som de músicas sobre guerra, violência, propaganda, suicídio, autoritarismo e colapso social.

Parabéns.

Sua adolescência era uma manifestação política e você nem sabia.


2. “Chop Suey!” é gigantesca — e não existe vergonha nenhuma em admitir isso

Todo fandom de banda grande desenvolve uma doença chamada Síndrome da Faixa Óbvia.

Funciona assim:

quanto mais famosa a música, menos o fã veterano pode admitir que gosta dela.

Pergunte qual é a melhor música do System para alguém usando camiseta do Toxicity e existe uma boa chance de a pessoa citar alguma faixa escondida como se estivesse prestando prova para conseguir cidadania armênia.

Calma.

“Chop Suey!” é enorme porque é uma música espetacular.

Ela passa de delicadeza para caos, de oração para pancadaria e de refrão radiofônico para ataque epiléptico musical em poucos minutos.

É praticamente um resumo do System of a Down em miniatura.

Negar “Chop Suey!” porque ela ficou famosa é como dizer que Pelé não era tão bom porque todo mundo conhece.


3. Toxicity é tão bom que criou um problema para o resto da carreira

Existem discos que ajudam uma banda.

E existem discos que viram um cunhado bem-sucedido no almoço de domingo.

Você pode fazer qualquer coisa depois, mas alguém sempre pergunta:

“E quando você vai fazer outro Toxicity?”

O álbum de 2001 encontrou uma combinação quase impossível entre peso, estranheza e acessibilidade.

É agressivo sem afastar.

Experimental sem virar tese de mestrado.

Político sem parecer reunião de diretório acadêmico.

E popular sem parecer calculado.

O problema é que quando você acerta essa combinação uma vez, o público começa a esperar que você tire o mesmo coelho da cartola eternamente.

Não existe outro Toxicity.

E ainda bem.


4. Daron Malakian é muito mais responsável pelo som da banda do que o público casual percebe

Para muita gente, System of a Down significa Serj Tankian.

É compreensível.

Serj tem uma das vozes mais reconhecíveis do rock moderno e presença de palco de alguém que parece simultaneamente um professor universitário, um profeta bíblico e o gerente de um restaurante que acabou de descobrir uma barata na cozinha.

Mas musicalmente, Daron Malakian é parte gigantesca da identidade do grupo.

Riffs, melodias, estruturas, harmonias, aquela mistura improvável de metal com elementos da música armênia — muita coisa passa por ele.

E quando Daron ganhou mais espaço vocal em Mezmerize e Hypnotize, parte do público reclamou.

O que é curioso.

Porque era mais ou menos como reclamar que o cozinheiro começou a aparecer no salão do restaurante.

Meu amigo, ele já estava preparando sua comida há anos.


5. System of a Down não é tão “metal” quanto muito metaleiro gostaria

Esse talvez seja justamente um dos maiores méritos da banda.

System sempre pareceu pouco interessado em preencher formulário de gênero musical.

Tem thrash?

Tem.

Hardcore?

Tem.

Metal alternativo?

Pode colocar.

Nu metal?

Às vezes.

Folk armênio?

Também.

Punk?

Bastante.

Música circense de um casamento realizado durante o apocalipse?

Certamente.

O problema é que fã de metal adora organizar bandas em gavetas como se estivesse catalogando parafusos numa oficina.

System pegou o armário inteiro e jogou pela janela.

Talvez seja exatamente por isso que envelheceu tão bem.


6. Parte das letras parece muito mais inteligente porque você ouviu quando tinha 15 anos

Vamos cometer uma pequena heresia.

Nem toda letra do System é tratado filosófico.

A banda trabalha muito bem com imagens absurdas, frases fragmentadas, humor, repetição e associações aparentemente desconexas.

Isso faz parte da linguagem deles.

Só que adolescente tem uma capacidade maravilhosa de transformar qualquer frase misteriosa em revelação transcendental.

Você ouvia alguma maluquice de Serj e pensava:

“MEU DEUS. ELE ENTENDEU O CAPITALISMO.”

Às vezes ele tinha entendido.

Às vezes era apenas System of a Down sendo System of a Down.

E isso não diminui nada.

Nem toda arte precisa chegar acompanhada de nota de rodapé.


7. System é uma banda política que muita gente conseguiu ouvir ignorando completamente a política

Isso talvez seja uma das ironias mais fascinantes do grupo.

Você pode passar anos ouvindo System apenas pelo riff.

Mas existe política em praticamente todos os cômodos da casa.

Guerra.

Genocídio.

Propaganda.

Militarismo.

Sistema prisional.

Mídia.

Consumismo.

Autoritarismo.

O System colocou várias dessas discussões dentro de músicas que adolescentes ouviam enquanto jogavam videogame e bebiam refrigerante.

É quase um cavalo de Troia ideológico com guitarra distorcida.

O sujeito entrava pela bateria.

Quando percebia, estava pesquisando política externa americana.


8. A ausência de discos novos ajudou a preservar o mito

Essa é dolorida.

Fãs querem álbum novo.

Natural.

Mas existe uma possibilidade que ninguém gosta de admitir:

talvez a falta de discos tenha ajudado o System of a Down a permanecer tão grande.

O último álbum de estúdio saiu em 2005.

Desde então, a banda não atravessou aquelas fases constrangedoras pelas quais tantos grupos veteranos passam.

Não teve disco eletrônico inexplicável.

Não teve tentativa desesperada de parecer jovem.

Não teve parceria com rapper do momento organizada pelo departamento de marketing.

Não teve álbum “de volta às raízes” anunciado como o melhor desde 1998.

A discografia ficou congelada praticamente no auge.

É frustrante.

Mas também é uma forma involuntária de conservação histórica.


9. System of a Down virou banda de nostalgia — mesmo que os fãs odeiem admitir

Chegou.

O dia que ninguém queria chegou.

System of a Down agora ocupa parcialmente o mesmo território emocional que bandas dos anos 70 e 80 ocupavam quando a geração dos anos 2000 era adolescente.

Toxicity tem mais de duas décadas.

Mezmerize e Hypnotize são discos de 2005.

Tem gente levando filho para show de System.

Repito:

FILHO.

O adolescente que baixava “BYOB_SYSTEM_OF_A_DOWN.mp3” no computador da família agora precisa conferir se o estacionamento aceita pagamento por aproximação.

Isso não diminui a banda.

Mas muda nossa relação com ela.

System deixou de representar apenas rebeldia contemporânea.

Agora representa também memória.

E nostalgia é uma droga poderosíssima.


10. O System nunca precisou de um novo álbum para continuar relevante — mas talvez precise para continuar sendo uma banda de verdade

Aqui está a contradição final.

System of a Down pode passar décadas tocando o repertório existente.

Existe material.

Existe demanda.

Existem clássicos suficientes para montar shows gigantes.

Mas chega um momento em que surge uma pergunta desconfortável:

é uma banda ativa ou uma celebração itinerante de uma banda que existiu?

Não é provocação gratuita.

É uma questão artística.

Porque existe diferença entre continuar tocando e continuar criando.

Shows mantêm repertórios vivos.

Discos criam novos capítulos.

E o System vive há anos numa espécie de temporada eterna de reprise premium.

Uma reprise maravilhosa.

Mas ainda uma reprise.